HORROR À BRASILEIRA

 

 


 

por César Coffin Souza

Bulhorgia

 

O que se espera de um país enorme e com uma rica cultura, mas sem memória? Com um folclore muito original pouco explorado e muito esquecido... Que só valoriza seus talentos depois do aval de culturas mais evoluída$$...Uma nação que diz ter 500 anos e convenientemente deixa seus originais habitantes morrerem de fome... Onde as artes ditas nobres não encontram apoio, o que se dirá dos gêneros “menores” da chamada 7ª arte???

YES, NÓS TEMOS HISTÓRIA!!!

 

Senhoras & senhores no país da telenovela, políticos, futebol & carnaval...Orgulhosamente apresentamos:

 

ESTES INCRIVELMENTE ESTRANHOS

FILMES DE HORROR NACIONAL!

 

(... na verdade, conhecendo as dificuldades de se produzir e exibir filmes por aqui, fazer cinema no Bras(z)il já é verdadeiramente um horror )


Com um atraso incrível, num país altamente supersticioso e folclórico nossos primeiros filmes de terror & sobrenatural só apareceram por aqui nos anos 60(apesar do Brasil ter cinemas desde 1896 e ter começado a produzir logo depois...). Assim sendo, a trajetória do gênero no país se confunde no inicio com a de seu pioneiro realizador: Jose Mojica Marins. Em 1964 apareceu Jozefel Zanatas, ou melhor, Zé do Caixão em “A MEIA NOITE LEVAREI A SUA ALMA”, terror mambembe, terceiromundista, portanto pobre & original. O próprio diretor/roteirista assumiu o papel do sádico coveiro em sua busca insana pela mulher-perfeita-que-lhe-daria-o-filho-superior.Tudo regado com blasfêmias,sexo,violência e aranhas de verdade. Alem das tiradas filosófico-hilárias de Mojica. O terror & o Trash nasceram juntos por aqui!! Em 1966, a busca da imortalidade pela continuidade do sangue continuou em “ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADAVER”. Desta vez atormentado pela culpa de ter matado uma mulher grávida, Zé sonha com um inferno gelado e a cores. 0 “pobrema” é o final do filme modificado por exigência da censura, com o amoral & imortal personagem se convertendo... Em 1967, a produtor Antonio P. Galante investiu num longa em episódios baseados em historias de R.F.Lucchetti (nosso 1° roteirista de terror para cinema,HQ,TV & literatura pulp) escritas para um programa de televisão comandado por Mojica. Mojica dirigiu “Pesadelo Macabro” copiando Edgar Allan Poe ao falar de catalepsia e enterro prematuro.

Ozualdo Candeias adaptou “0 Acordo” sobre um pacto com o capeta,e Luis Sérgio Person “A Procissão dos Mortos” sobre guerrilheiros-fantasmas.Apesar do filme se chamar “TRilOGIA DO TERROR”, as adaptações dos outros dois cineastas, apesar de muito boas quase nada possuem de assustador.Mas Mojica gostou da idéia de um filme em episódios e partiu para a realização solo de “O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXAO”.Na história do “Fabricante de Bonecas” um velho artesão utiliza olhos humanos em seus brinquedos; em “A Tara” um corcunda vendedor de balões obcecado par uma garota só consuma sua paixão com necrofilia e finalmente em “A Ideologia” Mojica apresenta um nova personagem QAXIAC ODEZ( de trás pra frente...)um professor piradão que defende sua tese do instinto superando a razão utilizando torturas, humilhação e canibalismo. ”Trilogia...” e “O Estranho Mundo...” foram lançados em 1968 com diversos cortes pela censura da época. O programa de rádio “INCRÍVEL, FANTASTICO, EXTRAORDINARIO” de enorme sucesso nos anos 50/60 (o mesmo que serviu de inspiração para a serie homônima exibida anos atrás pela extinta rede Manchete) foi adaptado para o cinema em 1969 por Adolpho Chandler, com o ator/cantor Cyll Farney num elenco que vivia quatro histórias sobrenaturais populares: “A Ajuda”, “0 Sonho” , “A Volta” e “O Coveiro”. O mesmo diretor voltaria à mesma fórmula em 1970 com “O IMPOSSÍVEL ACONTECE” apresentando então historias fantásticas tipo “Alem da Imaginação”. Ainda em 1969 foi produzida a chanchada carnavalesca de terror “UM SONHO DE VAMPIROS”, de Iberê Cavalcanti. Dr.Pan (o humorista Ankito)faz um pacto com a morte e se transforma num vampiro que ataca as principais autoridades de sua pequena cidade gerando urna serie de confusões.

 


Monstros de Babaloo, de Elyseu Visconti

 

Na onda psicodélica sessentista, “RITUAL DOS SADICOS” escrito par Lucchetti e dirigido por Mojica foi rodado e divulgado em 69. Mas a história do psicólogo que injeta LSD em viciados fazendo-os ter altas viagens envo1vendo Zé do Caixão foi totalmente barrada pela censura e somente liberado em 1983(!) estreando mal e porcamente com o título de “O DESPERTAR DA BESTA”.A década de 70 foi a mais promissora para o Horror brazuca, o movimento Udigrudi (Underground verde e a emergente “Boca do Lixo” providenciaram o estufo “B” necessário. “OS MONSTROS DE BABALOO” e “A POSSUIDA DOS MIL DEMONIOS”; O primeiro de Elyseu Cavalleiro e o segundo de Carlos Frederico ambos de 1970 são fantasias bizarras e simbólicas que tanto podem ser vistas como comédias burlescas de terror como alucinadas críticas à sociedade. Promovido em 71 como “0 1° filme Brasileiro de Ficção Científica”, “0 MACABRO DR.SGIVANO” co-dirigido por Raul Calhado e Rosalvo Caçador era na verdade uma tentativa de fazer terror ao estilo Mojica inclusive com o ator/diretor Calhado fazendo apresentações vestido a caráter como Scivano, um político fracassado que se envolve com macumba e em troca de riqueza se transforma em vampiro.Depois de reduzido à pó por uma cruz, um psicólogo decide que ele era apenas um paranóico (num final copiado de PSICOSE de 1960).

O Ítalo-brasileiro Raffaele Rossi (que enriqueceu na década seguinte ao iniciar a moda dos pornôs explícitos com COISAS EROTICAS) escreveu, dirigiu e estrelou uma fábula sabre a autoridade paterna e negligência familiar intitulada “O HOMEM LOB0” de 1971 com um professor que descobre que seu filho adotivo é um lobisomem que ataca mulheres num mato. Primeiro ele encobre os crimes e depois decide elimina-lo com a inevitável bala de prata. Rituais de magia negra foi tópico para “O GURU DAS SETE CIDADES” de Carlos Bini onde uma seita hippie com um líder tipo Charles Manson envolve a mulher de um milionário exigindo sacrifícios, e para “O DIABO TEM MIL CHIFRES” de Penna Filho onde um estranho pintor em uma ilha deserta domina um casal em lua de mel, ambos de 1972. A licantropia retornou com “O LOBISOMEM, O DEMONIO DA MEIA NOITE”(1974) ,outro Udigrudi típico de Elyseu Cavalleiro com edição caótica e diálogos surrealistas. Wilson Grey (em seu 1° papel principal) é um milionário que preside um culto no meio da floresta e se transforma em lobisomem (que mais parece um vampiro já que só seus caninos crescem...) até ser eliminado par uma figura mística vestida de branco. Foi a melhor versão do mito, já que “QUEM TEM MEDO DE LOBISOMEM?” de Reginaldo Faria do mesmo ano, era uma comédia que tentava reunir um homem-lobo, fantasmas, vampiras e uma viagem no tempo, numa mistura confusa.


Walter Hugo Khoury

O sucesso internacional do terror católico “O EXQRCISTA” (73) levou o produtor Osvaldo Aassaini a investir 150 mil dólares em “EXORCISMO NEGRO” (1974). José Mojica dirigiu e atuou representando uma paródia involuntária de si mesmo (Mojica intelectual e refinado??!). Numa casa de campo uma família tradicional e honesta (com um elenco Global da época) enfrenta uma bruxa (Wanda Kosrno, a bruxa oficial do cinema brasileiro), um filho do diabo e a próprio Zé do Caixão. Ainda em 1974, tivemos o surpreendente “O ANJO DA NOITE” de Walter Hugo Khoury (premiado no Festival de Terror de Sitges, Espanha).

Um denso e perturbador “psycho-killer” baseado em um fato verídico vivido por uma babá brasileira nos EUA e que também inspirou John Carpenter em seu clássico “Halloween”(78).
Numa mansão isolada, uma jovem babá (Selma Egrei) que cuida de duas crianças descobre que um louco assassino está dentro de casa...

Belo Horizonte e Ouro Preto serviram de cenário para “ENIGMA PARA DEMONIOS” de Carbos Hugo Christensen, baseado no conto “Flor, Telefone, Moça” de Drummond de Andrade. Monique Lafond vive urna mulher que volta para casa de seus parentes apos perder seu filho. Depois que, ela retira uma rosa depositada em cima de um túmulo passa ser aterrorizada por telefonemas do além. Christensen voltou a Minas e ao sobrenatural em “A MULHER DO DESEJO” (1975) onde numa mansão assombrada do séc.XVIII um homem recém casado é possuído pelo espírito de seu falecido tio. Já Rafaelle Rossi retornaria ao tema da dominação paterna (acho que era traumatizado este guri...) substituindo a licantropia pela possessão diabólica. Um menino é resgatado de um grupo de adoradores do capeta e adotado. Mais tarde ele e possuído e causa várias mortes ate que precisa enfrentar seu próprio pai. O filme possui o título exploitation de “SEDUZIDAS PELO DEMONIO”. A livre adaptação do “Caso dos Dez Negrinhos” de Agatha Christie gerou “0 SIGNO DE ESCORPIÃO”(1975) de Carlos Coimbra. Doze pessoas isoladas em uma ilha são assassinadas uma a uma de acordo com seus signos do zodíaco. No elenco além de Kate Lyra e Wanda Kosrno, num lance de marketing o famoso (na época) astrólogo televisivo Omar Cardoso faz urna ponta (mais ou menos uma versão brasileira de Criswell...)

O discípulo de Mojica, Marcelo Motta dirigiu seu mestre em “A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES” (1976), uma espécie de pousada purgatório mal-assombrada, gerenciada pela própria morte (Mojica), onde casais adúlteros, malandros, bandidos e hippies que entoam “... todo mundo nu, peladinho, peladão, Oba!”, vão encontrar a danação! Tentando ainda se adequar a um terror mais mainstream J.M.Marins filma um argumento de melodrama mexicano de terror chamado “INFERNO CARNAL” (76):cientista-abnegado-deformado-por-ácido-se-vinga-de-esposa-adultera-e-cuida-de-garota-sexy-ingênua (Helena Ramos). O criador do cinema de terror nacional já perdera o timing e só trabalhava para viver.

“EXCITAÇÃO”, de Jean Garret mostrou em 1976 o fenômeno “poltergeist.” numa casa de praia isolada onde uma mulher (Kate Hansen) tem visões com um suicida e enlouquece com os eletrodomésticos que funcionam sozinhos e a atacam. Uma obscura produção paulista “A VIRGEM DA COLINA” chegou aos Estados Unidos com o titulo de “The Ring of Evil”, contando a história de um anel que pertencera a uma prostituta com poderes sobrenaturais e que provoca dupla personalidade em urna jovem noiva e depois deforma seu rosto obrigando-a a usar uma máscara (direção de Celso Falcão em 1977). A atriz Rosângela Maldonado decidiu ser o Zé do Caixão de Saias e escreveu, produziu, dirigiu, atuou,fez a maquiagem, a cenografia e os figurinos ( ufa!) de “A DEUSA DE MARMORE ESCRAVA DO DIABO”(1977). A mística história de uma mulher com 2000 anos de idade que conserva a juventude extraindo a vida de homens durante o ato sexual. Meio atrapalhada com as múltiplas funções, Maldanado pediu à Mojica uma mãozinha para acabar sua mistura de pornochanchada com terror. Mojica ainda fez um papel como o demônio “Seu Sete Encruzilhadas”. O único elogio que a obra recebeu foram seus créditos de abertura desenhados de forma arrojada por Akira irayama, artista que também faz uma ponta no filme.

 


Jonh Doo

 

A ultima contribuição de Zé Mojica para o cinema de terror foi o artisticamente picareta “DELIRIOS DE UM ANORMAL” EM 1978. Sem grana para um filme novo, Mojica rodou apenas 30 minutos da historia do psiquiatra atormentado com pesadelos onde Zé do Caixão tenta roubar a sua mulher e completou o tempo restante com cenas extraídas de quatro filmes seus antigos e cenas cortadas anteriormente pela censura. Demencialmente Trash! O oposto fez Walter Hugo Khoury, seu “AS FILHAS DO FOGO” tem uma produção requintada, atrizes estrangeiras (a lindinha italiana Paola Morra) e roteiro intelectual baseado em casos relatados na revista Planeta. Numa mansão em Gramado (RS) duas jovens estudantes sofrem influências de magia negra, fantasmas e vozes de pessoas mortas. O mesmo ano marcou a estréia do diretor sino-brasileiro John Doo, artesão competente da Boca do Lixo que se especializou em terror—erótico a partir de “NINFAS DIABOLICAS”: duas jovens e belas estudantes pegam carona na estrada e envolvem homens solitários num jogo de sexo, telepatia e morte. Alem do clima fantástico e sensual, o filme mostrou a lª cena de nu fron¬tal liberada pela censura. Elogiado pela crítica, John Doo conseguiu uma produção classe “A”, elenco e roteiro oriundo de telenovelas para “UMA ESTRANHA HISTORIA DE AMOR” (1979) onde a trágica paixão de um casal sobrevive à morte, reencarnações e influência de outros amantes. Voltando ao sistema trash da Boca ainda dirigiu “EXCITAÇÃO DIABOLICA” (1981) com Wanda Kosmo novamente corno uma bruxa, prostituta com o poder de se transformar nas gostosas Aldine Muller e Zaira Bueno para consumar uma vingança e episódios de terror & sacanagem nos pornôs “A NOITE DAS TARAS” e “PORNÔ”.

1982 foi um ano muito produtivo para o gênero. A dupla Luiz Gastellini e Cláudio Cunha, especialistas em sacanagem realizaram “A REENCARNAÇÃO DO SEXO” onde a bela Patrícia Scalvi é dominada pela vontade da cabeça decepada de seu amante que exige vingança e um novo corpo. Divulgado como sendo uma adaptação de um conto de Bocaggio, era na verdade uma cópia mais erótica do argumento do clássico da Hammer “Frankenstein Criou a Mulher” de 1966.

O carioca Ivan Cardoso, cinéfilo inveterado, driblou todas as dificuldades para realizar de forma independente sua homenagem-paródia aos clássicos da Hammer e Universal “O SEGREDO DA MUMIA” (82) onde um cientista louco brasileiro (Wilson Grey) descobre um soro da vida e ressuscita urna múmia egípcia (Anselmo Vasconcelos) para sua vingança pessoal Uma perfeita combinação de chanchada com terror, sexo e deboche, nasce o “Terrir”. O horror era moda internacional nesta época e a tônica da produção brasileira era calcar nos modelos de sucesso americano. “SHOCK” (82) de Jair Correa era uma tentativa de realizar um suspense no estilo “Sexta Feira 13”: após uma festa numa mansão, jovens são aniquilados como moscas por um maníaco metido a baterista. No “BANQUETE DAS TARAS” (82) de Carlos Alberto Almeida, um escultor recebe uma visita da Transilvânia com uma missão: sossegar seu antepassado o Conde (Dracula??) no sepulcro de 500 anos fazendo sexo e sacrificando quatro mulheres.

Já no “CASTELO DAS TARAS” (como são originais estes títulos nacionais...) do mesmo ano, dirigido par Julius Belvedere, em um grupo que realiza estudos em uma mansão um deles é possuído pelo espírito do Marquês De Sade e transforma tudo numa festa com sexo explícito.(se esqueceram da violência & Terror...).O Ítalo—brasileiro Uberto Molo trilhou carninhos mais intelectuais e seu ”TORMENTA”(82) é um terror psicológico sobrenatural com influências de Alain Resnais e do clássico inglês “NA SOLIDÃO DA NOITE”( de 1945,por sinal co-dirigido por um brasileiro Alberto Cavalcanti:).Uma garota e sua madrasta ficam isoladas em uma ilha deserta e atemporal passando par uma experiência fantástica.Tudo muito sutil e sugerido.

Para competir com as filmes pornôs americanos que dominavam os cinemas da época, tentaram um misto de terror com sexo explícito resultadas no mínimo muito engraçado “AS TARAS DE UM MINI VAMPIRO”(1984) de Jose Adalto Cardoso que colocou a anão Chumbinho coma a personagem titulo, atacando casais em pleno ato de sacanagem e sendo caçado par um subnutrido Van Helsing nacional. Já “ARREPIOS” de 1986 se servia da fórmula de terror sacanagem em episódios para mostrar talvez que as maiores monstros nacionais foram algumas atrizes pornôs da Boca do Lixo, já que elas rivalizavam em feiúra com a mutante aranha e o monstro das cavernas desta pérola trash.

O “deboche respeitoso” de Ivan Cardoso com os clichês do gênero resultou na pornochanchada noir musical macabra “AS SETE VAMPIRAS” (1986). Uma espécie de “Fantasma do Cabaré” que assombra a Rio de Janeiro dos anos 50 e ataca as gostosas vampirinhas de um show. Muitas citações, nesta ótima reconstituição de época e besteirol classe “A”. A onda de filmes de terror atinge a ápice no país gerando a que se chamou de “Espantomania”, mas fora as homenagens aos clássicos dos anos 30/40 de Ivan nada mais tinha a que acrescentar. Sentindo que seu terror pornográfico tipo Sexta 13 nacional não ia vingar, o dublê de ator/diretor Francisco Cavalcanti pediu socorro para o velho Mojica para substituir cenas de putaria explícita por mais sangue em “A HORA DO MEDO” (86). Os 13 minutos adicionais de gore demencial são a que prestam na história de um psicopata filhinho da mamãe.

 

 

Os anos 90 nos trouxeram Fernando Collor e uma pá de cal no que restava do cinema nacional. Mas dois fenômenos trariam o cinema macabro de volta da tumba: a internacionalização de nossos representantes, José (agora “Coffin Joe”) M. Marins e Ivan (”The Terror”)Cardoso e a nascimento de uma nova geração, a dos Videomakers alucinados e com uma bagagem de influências maléficas na cachola.O produtor/diretor Fauzi Mansur realizou com vista no mercado internacional “ATRAÇÃO SATANICA” (Satanic Attraction) em l990.Uma série de assassinatos no litoral são motivados par um casal de gêmeos criados por uma seita demoníaca. Um bom Splatter com produção convincente e elenco correto, que só pecou par um roteiro previsível e por sua dublagem em um inglês “caipirônico”. Apesar de exibido em mais de dez paises (incluindo EUA, Itália e Alemanha)foi queimado aqui por uma distribuição inexistente. Mesmo assim Mansur realizou “RITUAL MACABRO” (Ritual of Death, 1991) rodado em São Paulo e lançado lá fora com elogios da crítica (que o considerou muito superior em produção e violência), mas que continua inédito entre nós até hoje. Tem a ver com o espectro de um pastor psicopata tipo Jim Jones que assombra um grupo de teatro provocando mortes sangrentas.

Com a impossibilidade técnica e financeira de realizarem obras em película, uma série de novos realizadores passou a utilizar suas câmeras caseiras de vídeo e curtas de horror/Trash pipocaram em todo o país. ”Pipoca” é também uma referência para descrever esta geração, realmente muito jovem, viciada em TV, filmes vagabundos, quadrinhos, pipocas, refrigerantes e muita cerveja. Se os realizadores brasileiros até então se dividiam entre os que não tinham nenhuma cultura cinematográfica e os formados/influenciados pelo cinema clássico Hollywoodiano ou Europeu, agora a regurgitação de centenas de informações da cultura pop com um grosso caldo de transgressão era a tônica. O 1° longa metragem apareceu em 1993 no oeste de Santa Catarina (um estado sem quase nenhuma história cinematográfica) “CRIATURAS HEDIONDAS” de Petter Baiestorf, rodado com parcos recursos era uma ficção científica de Terror sobre um cientista marciano tresloucado que quer dominar a terra. “CRIATURAS HEDIONDAS II” (1994) mostrava o dia seguinte a invasão, com as influências óbvias de Ed Wood, Massacre da Serra Elétrica, seriados japoneses, Roger Corman,etc. .Inventando seus próprios efeitos especiais e recursos técnicos e descobrindo atores amadores com a cara do gênero (como E.B.Toniolli e Jorge Timm) Baiestorf e sua CANIBAL PRODUÇÕES tomou de assalto o circuito underground nacional. Uma onda de modismo pelos Trash-movies e o aparecimento da 1ª convenção nacional de Horror em São Paulo aceleraram o movimento. Depois de “AÇOUGUEIROS” (1994) sobre duas facções de uma estirpe de canibais, Baiestorf (já com uma equipe mais numerosa e contando com os FX da Gore G.G.Efeitos)r odou “O MONSTRO LEGUME DO ESPAÇO” em 1995.

 

 
Zé Caixão bem acompanhado em o Exorcismo Negro, de 1974

 

O clássico da escatologia e trash nacional contava as aventuras de uma criatura aprisionada por um cientista tupiniquim e seu ajudante, um nojento comedor de merda Caquinha. Mesmo sem um circuito de exibição ou distribuição o vídeo virou mania e influenciou novos realizadores. Somando forças (ou misérias) a Canibal virou Canibal/Mabuse e além de curtas e clips no ano de 1996 foram lançados “ELES COMEM SUA CARNE” um horror-gore sobre canibalismo, romance e necrofilia na historia de urna comunidade antropofágica que tenta viver em harmonia nos nossos dias; “CAQUINHA SUPERSTAR A GO GO: THE GORE HORROR PICTURE SHOW” uma comédia musical escatológica desenvolvendo o personagem aparecido em “O Monstro Legume” ambos de P. Baiestorf e “SATANIKUS” de César Souza uma homenagem aos clichês do gênero e ao escritor Paulo Coelho.

Mojica, que já ganhara até um clone: Antonio Firmino, o “Toninho do diabo”, o realizador dos curtas “O Caçador de Almas” & “O Caçador de Falsos Profetas”) aderiu a nova “Boca do Lixo Eletrônica”. Dirigido por Andrea Pasquini, atuou em “CONTOS DE HORROR—A FILHA DO PAVOR” (1997) em dois papéis, um deles denominado “O Cavaleiro do Medo” e fez uma ponta no pavoroso (literalmente) “BABU - A VINGANÇA MALDITA” de César Nero, ambos sobre adoradores do diabo e vingança ( talvez de seus realizadores contra a humanidade...).

“BLERGHHH!” (96/97) de Baiestorf foi rodado como urna aventura policial mesclando drug-movies, sexo e mortos vivos sem cabeça que conseguiu a façanha de reavivar a censura, ao ser proibida a sua exibição pública em uma convenção nacional de Horror por causa de suas cenas de sexo & violência! O “clone do clone de Mojica” Boni Coveiro e sua produtora chapecoense: Extreme Produções rodaram vários curtas na linha Jason—subdesenvolvido (“Carpindo nos Corpos”, ”Re-bocando os Corpos”, ”Operando. as Corpos”...) para serem lançadas numa fita-coletânea intitulada “PROFISSÕES MACABRAS”(1997/1999).

O roqueiro e videomaker paulista Cleiner Miscceno, depois de vários curtas metragens divertidos consegue finalizar “DOMINIUM”, em 1999 uma apocalíptica visão da terra sendo dominada por mortos vivos demoníacos. O mesmo tema foi escolhido par Petter Baiestorf e César Souza para o “canto do cisne” (êta expressão boiola!) da década e de sua produtora associada. Depois de longas voltados a transgressão e sexualidade exacerbada ( “GORE GORE GAYS” & “S.B.A. F.” ambos de 1998) retarnaram a linha terror-trash-debochado em “ZOMBIO”(1999) onde em uma ilha do rio Uruguai um casal enfrenta um psicopata,um alienígena e uma horda de zumbis-canibais famintos.

Já que o mundo não acabou no ano 2000, o que nos espera no novo milênio??? Conseguirão estes heróicos cultuadores do Horror & do Trash saírem da eterna crise econômica? Uma nova geração de realizadores já começa a dar sinais de produção: o Tromaníaco Fernando Rick com seus Gores filmados em digital, o insano Gurcius Gewdner com seus experimentos demento-gore-musical inclassificáveis, os curtas em película de Dennison Ramalho e muitos outros que movidos pela explosão do vídeo canibal dos anos noventa ajudam a manter a história do cinema transgressor sempre vivo e em movimento. Conseguirá o nefasto “Politicamente Correto” exterminar o tesão-transgressor???? Acho que não...

 

 
     

 

 
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