FÊMEAS EM FUGA

por Andrea Ormond
EstranhoEncontro
O subgênero
WIP (Women in prison, mulheres na prisão), desponta no cinema
exploitation europeu e norte-americano no final dos anos 60, misturado
às vezes com narrativas picaretas sobre nazismo – onde
as habitantes dos campos de concentração eram judias bem-fornidas
("Love Camp 7” de 1969 é um bom exemplo) – ou
pseudo-denuncismo sobre gangues de transviados, que caçam e estupram
moças indefesas (caso do clássico de 1965, “The
Defilers”). Como tudo de bom que surgiu nos anos 60, o gênero
se expandiu nos 70 e praticamente desapareceu ao longo dos 80.
Mas longe destas anotações pitorescas, o que é
um WIP? Sadismo mal disfarçado, misoginia erotizada, o gosto
por ver uma – ou algumas – mulheres encarceradas, violentadas
e brutalizadas, acaba sendo, sem hipocrisias, compartilhado por homens
e mulheres na mesma proporção e entusiasmo.

Interessante
também dizer que alguns dos “clássicos” do
WIP são dos filmes mais assistidos e comentados por lésbicas
e/ou praticantes de S/M de todos os estilos. Obras-primas como “Barbed
Wire Dolls” do especialista Jess Franco, contêm cenas de
lesbianismo – e dominação/submissão –
mais bem feitas do que quase toda a prospecção da arte
específica do assunto.
Claro que no Brasil algo parecido – e como de praxe, mais divertido
e original – haveria de surgir. Filmes como “Presídio
das Mulheres Violentadas” e “A Prisão” -- ambos
do cineasta da Boca, Oswaldo de Oliveira – são hoje cultuados
no exterior pelos adoradores de WIPs, com dublagens em alemão
ou inglês.
Outra versão tupiniquim do gênero está na co-produção
ítalo-brasileira “Fêmeas em Fuga” (1985), ano
em que o diretor Michele Massimo Tarantini também realizou a
pérola “Perdidos no Vale dos Dinossauros”. Os dois
filmes são estrelados por Suzane Carvalho, ex-atriz, futura campeã
mundial de Fórmula-3 e irmã da pastora Simone Carvalho
– a starlet que teve alguma atenção nos anos 80
trabalhando, dentre outros, com Cláudio Cunha em “O Gosto
do Pecado” (1980).
“Fêmeas em Fuga”, de longe, é o mais conhecido
WIP rodado no país, apesar de inferior aos filmes de Oswaldo
de Oliveira. O problema é que visando ao mercado internacional
– já segmentado, interessado e crescente àquela
altura dos anos 80 – e utilizando equipe européia, o resultado
aqui deixou uma certa trava, soou estranho, como um daqueles filmes
brasileiros que tem vergonha de sê-lo – algo nos moldes
de “A Grande Arte”, inacreditável longa de estréia
de Walter Salles, e obra maior desse cinema esdrúxulo.
Porém, sublimado o aspecto alienígena, “Fêmeas
em Fuga” conta as aventuras de Ângela Duvall (Suzane Carvalho),
condenada à prisão ao assumir o crime cometido por Sérgio
(Paulo Guarnieri), seu irmãozinho caçula.
Não sabemos se o sobrenome “Duvall” é resquício
do famigerado escândalo de 1980 – quando a atriz Dorinha
Duval matou o marido – ou é apenas mais um estrangerismo.
Mesmo assim, já no trajeto entre o tribunal e a penitenciária,
percebemos que Ângela é a mulher idealizada, a começar
pelo próprio nome. A heroína que leva cusparadas na cara,
que é cobiçada pelos guardas no camburão e que
deglutirá calmamente "il pane che il diavolo ha impastato".
Recepcionada pelas colegas, Denise (negra imensa, criatura perturbada,
que assume o papel de protetora) e Joana (chefe que comanda a curra
entre garotas a que todo wip flick tem direito), Ângela sofre
um quase-enforcamento por homens encapuzados que invadem a cela ao descobrirem
o tumulto que a grã-fina vem provocando.
Luís (Henri Pagnoncelli), médico do serviço de
assistência às detentas, se apaixona e luta para provar
a inocência da garota. Entra em conflito com o Capitão
Bonifácio (Leonardo José, mais conhecido por sua voz nas
dublagens do que pela presença de fato nos filmes).
Ladino, inescrupuloso, Bonifácio esconde provas e conta com o
apoio da Inspetora (Rossana Ghessa), seu duplo feminino, que assedia
Ângela e consuma uma das mais inebriantes cenas de sexo lésbico,
comentada e reproduzida ad infinitum pelas admiradoras e admiradores.

É
claro que esta dobradinha entre submissão – por parte de
Duvall – e desejo – escancarado pela personagem de Rossana
Ghessa – ocupa as fantasias do público, sustentando o filme
e abrindo o apetite para a fuga de Ângela e companheiras –
muito parecida com a fuga de "Barbed Wire Dolls" – momento
crucial da história.
A profusão de balas, espingardas, correria e uma ridícula
cobra de isopor no meio da floresta – sim, pois sempre há
uma floresta com galhos, bichos e artefatos que gradativamente rasgam
as roupas das fêmeas em fuga –, têm como conseqüência
a morte dos perseguidores – exceto da Inspetora, que desaparece
do nada, após concluir a magistral incursão – e
o reaparecimento, em um salto no tempo, do casal Ângela-Luís.
Desmemoriada, casada e com filhos, Ângela vive uma redenção
às avessas: está traumatizada, não sabe nada sobre
o passado, mas permanece fora do alcance da lei. Este recurso diz muito
sobre as heroínas arquetípicas do cinema machista, infernizadas
pelas dificuldades, mas que atingem um grau superior de pureza ao começarem
um novo lar, cuidando do marido e da prole. Lembremos de "Kill
Bill", quando a Noiva se transmuta de assassina fálica em
mãe passiva e cuidadosa.
É no cruzamento de tendências, entre o espúrio e
o vendável, que “Fêmeas em Fuga” se destaca
e encontra mercado em vários países do mundo até
hoje, entrando para a história da cinematografia nacional. Na
dúvida, vale a pena tentar visitar outros presídios femininos
– principalmente os produzidos na Boca – cheios da decadência
e perversidade 100% brasileiras, e que fazem a maioria dos WIPs gringos
– inclusive este – parecerem certinhos e limpos demais.