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por Leonardo Bomfim
A música de Lô Borges é o próprio sonho que não envelhece. Desde a sua estréia arrebatadora com o histórico Clube da Esquina, passando por outros momentos memoráveis, como o disco do tênis; A Via-Láctea; Nuvem Cigana; Meu Filme, até o recém-lançado Bhanda, que suas canções apaixonam com um frescor juvenil inigualável. Há belas doses de melodias melancólicas, psicodelia em estado bruto, canções pop para embalar casais, folk-rock especialmente brasileiro... Lô Borges é tudo isso e mais um pouco. “A música para mim é uma ferramenta para lidar com o mundo”, ele afirma. Ele pode ter certeza que o mundo de muita gente é mais harmonioso por causa de suas canções. Confira agora uma entrevista com um dos grandes compositores da música brasileira. Em qual momento da sua vida a música apareceu? A musica entrou na minha vida quando eu era bem garoto, talvez tenha sido o ambiente musical que já reinava na minha casa, os irmãos mais velhos gostavam de tocar, meu pai e minha mãe estavam sempre cantando. Eu respirava música, o rádio estava sempre ligado. Meu irmão Marilton tinha alguns amigos que formaram uma banda que ensaiava lá em casa. Nessa época eu devia ter uns 7, 8 anos. Antes disso, eu gostava das coisas que tocavam no rádio, Ângela Maria, marchinhas de carnaval... Enfim, a música sempre esteve presente no meu imaginário. E quando você começou a despertar o interesse em tocar? A música começou a entrar mesmo dentro do meu cotidiano a partir dos meus 10 anos de idade, com os ensaios do Marilton, o Milton, o Wagner Tiso e outros músicos dessa geração lá na minha casa. Eu adorava ficar vendo eles. Tocavam bossa nova principalmente. A coisa que achava mais legal é quando acabava o ensaio e ficavam todos aqueles instrumentos... Eu ficava fuçando, pegava o piano, um pouco de violão eu prestava muita atenção no que eles faziam, era um cara muito observador. Sempre prestava atenção no que os adultos faziam, e tentava reproduzir depois que terminava o ensaio. E aí foi o começo, bem da gênese da música na minha vida. Nessa época surgiram os Beatles. Foram a sua primeira paixão musical? Foi uma coisa avassaladora, eu já era um cara que amava a bossa nova, Tom Jobim, João Gilberto, aprendi a tocar violão com “O Barquinho” do Menescal, aquele disco do João Gilberto “O Amor, O Sorriso e A Flor”. A música inglesa dos Beatles tem uma harmonia diferente. Era considerada uma harmonia até mais pobre que a bossa nova, que era dissonante... Eu comecei com essa harmonia mais dissonante, mas quando os Beatles chegaram, tomaram conta do meu coração, do meu interesse e eu parti pra essa. Assisti ´A Hard Day´s Night dez, vinte, trinta vezes... Eu ia ao cinema todos os dias. E a Jovem Guarda, você gostava de Roberto Carlos e cia? Eu não perdia um programa da Jovem Guarda, era apaixonado pelo Roberto Carlos, chegava ao cúmulo de, depois que acabava o programa, ir pra frente do espelho e tentar pentear meu cabelo como ele! (risos) De vez em quando eu esqueço de falar da Jovem Guarda nas entrevistas, mas foi uma coisa que me pegou muito forte. Principalmente o Rei, o Erasmo, o Jorge Ben quando aparecia lá... The Clevers, Jet Blacks. Aquilo fez parte da minha emoção quando criança. Foi nesse momento que você conheceu o Beto Guedes? Eu me tornei um beatlemaníaco e aí conheci o Beto Guedes, que era um cara que tinha chegado do interior de Minas e morava a uma quadra da minha casa. Eu o conheci por uma obra do acaso, ele tava passeando e eu me interessei pela patinete dele... Aí conversa vai vem, ele me disse que na casa dele todo mundo fazia música, assim como na minha. Aí nos tornamos dois beatlemaníacos.
E aí vocês formaram uma banda... Nós formamos uma banda chamada The Beavers, que começou a se apresentar em BH cantando musica dos Beatles. E o repertório tinha canções próprias? Era só Beatles. Se os beatles já eram uma grande novidade na cena mundial, um grande estouro no mundo; em Belo Horizonte teve um acontecimento que foi uma banda formada por crianças de 10 anos de idade que cantavam músicas dos Beatles no mesmo ano do lançamento no Brasil! Nós fizemos um grande sucesso em BH, tocamos em vários programas de T.V, no rádio, de auditório... Aí começou acenar uma coisa semi-profissional, porque nós nos apresentávamos com público, eu acho que a partir daí que começou mesmo a coisa do direcionamento para uma música profissional. E pouco tempo depois você estaria compondo com o Milton Nascimento... Eu não tinha o sonho profissional de ser artista naquele momento, gostava de cantar as músicas dos Beatles, mas queria começar a compor minhas músicas e fazer alguma universidade. O Milton, que já tinha brilhado no festival da canção com Travessia, e estava com uma carreira sólida, toda a vez que voltava a BH perguntava por mim. Ele ia à minha casa e as pessoas falavam que eu estava na esquina, no lugar que a gente chamava de clube da esquina. Eu comecei a mostrar as primeiras coisas que vinha fazendo de composição e ele gostou bastante, começou a gravar. A primeira que ele gravou foi “Para Lennon & McCartney” A sua primeira composição já é um hino! Pois é! Além dessa, ele gravou outra minha chamada “Alunar”, que tem como subtítulo “Além dos Anéis de Saturno”. Eu queria até perguntar dessa música, porque nesse disco do Milton “Para Lennon & McCartney” e “Clube da Esquina” sempre são muito comentadas e “Alunar”, apesar de ser maravilhosa, acaba quase como um patinho feio ali... Eu nunca
toquei ela em shows, ela serviu muito para aquele momento das minhas
buscas musicais. Eu tenho vontade de rearranjá-la e dar um tratamento
porque é muito interessante.
E qual foi a sua reação ao ouvir isso? A minha reação foi patética! (risos) A primeira coisa que eu pensei foi: “minha mãe tem que autorizar!” (risos) Naquela época eu tinha uns 17, 18 anos e a música era uma coisa meio marginal ainda. Hoje as mamães todas querem que os filhos formem uma banda de rock pra ver se da certo (risos). Era um pouco diferente antes, eu não tive um incentivo no primeiro instante, eles relutaram um pouco e aí eu consegui, com a ajuda do Milton e do Márcio Borges, convencer a minha família que era um passo importante pra minha vida ir morar no Rio, continuar compondo as canções e fazer um álbum que poderia abrir uma possibilidade de uma carreira bacana pra mim. Só que eu coloquei uma condição pro Milton. Pra eu ir ao Rio morar com ele, queria levar uma pessoa da minha geração, o Beto Guedes, que era o cara que tocava Beatles comigo. Afinal de contas, nós éramos beatlemaníacos... Porque se eu chegasse no Rio sozinho, ia encontrar só os amigos do Milton que tocavam bossa nova, samba, jazz... Ninguém ia querer tocar Beatles comigo! (risos) E aí ele foi contigo? O Milton topou, ele já era um entusiasta da nossa bandinha. Nós fomos na casa do Beto pedir para mãe dele autorizar. Ela autorizou bem mais rapidamente que a minha família, foi super liberal só pediu: toma cuidado porque ele é do interior, não sabe atravessar a rua direito... (risos) É legal isso. Você comentou dos sambistas, jazzistas... E o Beto no Clube da Esquina foi fundamental. A pegada roqueira dele casou perfeitamente com a música de vocês... Pois é. O Beto sacava exatamente o que eu queria nas minhas músicas, era o cara que comungava das idéias minhas. A gente tinha idéias convergentes, o que eu achava de música ele também achava... Quando o Milton me convidou pra ir ao Rio, eu fui muito inspirado em levar ele. Foi fundamental a presença dele, principalmente nas minhas músicas. Em “Trem de Doido”... Aquele solo de guitarra dele é sensacional! Exatamente! Meu grande braço direito era o Beto, Eu pegava qualquer coisa musica minha que a gente ia gravar e cantava primeiro pra ele: “Beto, nós podemos partir pra esse lado aqui, no “Trem de Doido” você pode fazer uma guitarra bem frenética, bem louca...” Então a gente trocava as idéias. Esse primeiro momento no Rio, como foi? E aí foi essa historia de a gente gravar o álbum, morar um tempo... Do convite até o álbum ir pras lojas passaram quase dois anos. Quando ele me convidou eu tinha 18 anos... Aí fui pro Rio e fiquei morando lá um ano e pouco, depois começamos alguns ensaios e fui compondo as musicas. O Milton foi testemunha ocular de várias canções minhas, eu fui testemunha ocular de várias composições dele, e o Beto também foi das nossas, ele morou junto com a gente. A gente foi pro estúdio junto com pessoas da maior categoria como Naná Vasconcelos, Toninho horta, Robertinho Silva, esse era um pessoal mais amigo do Milton.
O que você ouvia nessa época? Eu continuei ouvindo as coisas que eu gostava do Brasil. Sempre gostei muito do Chico Buarque, da Tropicália, e gostava do rock progressivo, Genesis, Yes, Emerson Lake & Palmer, de Stevie Wonder também. Naquele momento Belo Horizonte era chamada a capital do progressivo, surgiram varias bandas na época em que eu e o Beto saímos pra gravar o clube da Esquina, a cena toda de BH estava acenando para uma musica progressiva. E a gente fazia parte dessa cena, dos jovens de 17 e 18 anos. Essa influência foi muito importante, mas sempre com os Beatles na frente, em primeiro lugar. É muito interessante isso, porque que o rock progressivo acabou com muita banda brasileira. Os Mutantes, por exemplo, perderam toda a qualidade quando conheceram o Yes e tentaram imitar aquilo. Já o som de vocês, tem muitas coisas de rock progressivo, mas sempre foi muito brasileiro, muito diferente e novo. Passava longe de uma cópia barata. Exatamente. A gente não tentou forjar um progressivo, fazer um progressivo tupiniquim de forma nenhuma. A gente bebeu dessas influencias, mas soube, com certa esperteza, uma sacação boa, que não era legal ficar copiando, apenas pegar o que achava importante, elementos da musica dos caras que poderiam entrar, mas sem descaracterizar a nossa música. Minha música sempre foi uma mistura do que eu aprendi quando era bossanovista aos 10 anos de idade, quando virei beatlemaníaco aos 12. Enfim, o Tom Jobim gravou “Trem Azul” porque percebeu que tinha uma coisa altamente brasileira dentro daquela balada com palheta, diferente do que se fazia no Brasil naquele momento. E antes mesmo de ele gravar, quando eu soube que ele adorava o Clube da Esquina, e que a canção predileta era “Trem Azul”, pensei: “puxa tem uma coisa brasileira na minha música”. Eu quero que minha música sempre mantenha uma coisa brasileira mesmo tendo influência de outras atmosferas. Você capta o que escuta, mas tem que ter sua personalidade mais forte. Na época você tinha três principais parceiros para as composições: Márcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos. Como eram feitas? Você fazia música pensando em algum ou entregava para quem estava mais perto? Das duas maneiras. Às vezes eu pegava o que estava mais perto, mas normalmente, eu elegia um deles pra fazer a música. “Essa aqui eu acho que é pro Márcio, essa é pro Fernando”. O Márcio é mais freqüente primeiro porque a gente é irmão, morava na mesma casa... Assim que eu fazia a música, já tava o Marcinho olhando pra mim com o olho verde arregalado (risos). E foi exatamente esse período o mais tenebroso da ditadura militar. Algumas músicas do disco, como “Tudo o Que Você Podia Ser” e “Nuvem Cigana” acabam citando o medo, naqueles versos “Se você deixar o coração bater sem medo...”. Como era pra você, acabando de sair da adolescência, ter que lidar com este panorama? O fato de a ditadura estar existindo naquele momento foi o principal empecilho da minha família não querer que eu fosse pro Rio, eles tinham medo da repressão. Morriam muitas pessoas, desapareciam muitas pessoas... A gente compôs as canções do Clube da Esquina bem na atmosfera da ditadura mesmo, tivemos que nos isolar numa casa, porque naquele momento, se juntasse mais de quatro pessoas numa casa poderia ser considerada uma célula de aparência subversiva. A gente passou essas agruras da ditadura ma conseguimos levar nossa musica. E vocês tiveram algum problema mais sério? O Milton era chamado a depor... Eu não tive problemas, nem o Beto, mas a ditadura era implacável... Eu tava numa de não me interessar, estava interessado pela novidade que eu podia trazer dentro de um som. A minha resposta à ditadura era fazer um som novo, diferente. Eu desconsiderei que existia uma ditadura apesar de saber que ela era perigosa. Foi o mesmo momento do flower power, dos hippies... Eu optei por um lado mais hippie da vida do que um lado de contestação frontal à ditadura, por isso a gente começou a falar de trens azuis, nuvens ciganas, porque a minha musica sugeria um pouco abrir essas portas. Os letristas em alguns momentos falaram, por metáforas, coisas importantes sobre a ditadura. Eu era mais porra louca, mais infantil, juvenil... Meu negocio era fazer musica, se me levassem preso eu ficaria muito decepcionado, mas continuaria fazendo as canções porque era o que me interessava. O seu lançamento seguinte, o disco do tênis, confirma o seu lado hippie. As músicas são bem doidonas. Aquele disco eu acho experimental, interessante, mas eu gravei no mesmo ano no Clube da Esquina. Os caras da gravadora gostaram tanto do que eu havia feito no disco, que me ofereceram um contrato pra que eu fizesse, imediatamente, um disco solo. Só que eu era um compositor emergente, as músicas do Clube da Esquina eram as minhas primeiras composições. Eu não tinha ainda uma bagagem como compositor, não tinha um acervo de canções que me permitissem fazer um disco no mesmo ano, mas topei o desafio. Eu fazia as músicas de manhã, o Márcio Borges fazia as letras à tarde e à noite a gente ia pro estúdio fazer os arranjos e gravar. Era um pique assim full time, oficina de criação de músicas incessante. Foi um disco que teve um prazo curto de duração, foi feito em um mês e pouco, rápido e urgente. Como eu não tinha as canções, é um disco cheio de vinhetas, de sons diferentes... Uma canção não tem muito a ver com a outra, aponta pra vários lados. Eu considero experimentalista, mas tudo porque eu gravei o disco sob pressão. E eu não fiz o álbum que eles gostariam. Eles queriam novos ´trens azuis´, ´janelas laterais´, ´nuvens ciganas´ e eu parti pra um disco de canções de 30 segundos, 1 minuto e meio, 4 minutos. Tem muita gente que é fã desse disco, inclusive eu!
Você não chegou a fazer show desse disco, né? Não teve! Eu brinco com meu produtor que quando eu tiver bem velhinho, vou fazer o lançamento do disco do tênis. Quero tocá-lo na íntegra, com os arranjos iguais, os mesmos efeitos, pedais da época. Um concerto único em uma única cidade e depois fazer um dvd. Falando em shows, há relatos de que a temporada de shows de lançamento do Clube da Esquina foi um desastre. A banda brigava no palco, o lugar era horrível, nada dava certo... É verdade? Foi uma temporada meio maluca porque naquela época as coisas estavam muito malucas, sabe... A ditadura atrapalhava muito a relação das pessoas... Só suportavam a ditadura, tão feroz como ela foi, bêbadas e drogadas. Eu fazia parte dos drogados! (risos) O disco foi uma oficina de criação também, todo mundo pôde intervir na nossa música, da maneira que queria... O que a gente conseguiu no disco não era tão fácil de organizar no palco. Eram 15, 20 pessoas dentro do palco, a maioria fazendo uso álcool ou de outras substâncias químicas e lá fora os camburões passando e prendendo todo mundo. Não tinha uma condição muito tranqüila pra fazer um show organizado, a gente era contaminado pelo baixo astral da ditadura. E a questão das drogas... A época era a mais propícia para experimentar. Certa vez eu li uma interpretação de “Trem Azul”, dizendo que era a veia. Como foram as suas experiências com as drogas? Olha, essa interpretação aí é maluca! (risos) Teve um momento da minha vida que eu tomava ácido todos os dias, não só eu como mais cinco ou seis pessoas... Foi imediatamente após o Clube da Esquina. Na época dos shows eu era bem maluco... tomava ácido, queimava fumo.. O Milton estava vivendo um momento de alcoolismo, coisas pesadas acontecendo. Talvez por isso o show não tenha sido normal. Foi uma temporada meio atípica e a gente não levou em frente. Mas o disco está aí pra contar que a história foi bacana. Aí depois do disco do tênis você sumiu. Por quê? Aí eu pedi ´time´ né: “pára o mundo que eu quero descer”. Eu tinha saído da minha casa dois anos antes, fiz um álbum duplo com o Milton Nascimento, fiz um show maluco com ele e fiz um disco do tênis em que eu era obrigado a fazer músicas... Depois disso eu me senti sufocado e resolvi fazer as coisas que a minha geração estava fazendo.. Fui pra Bahia de carona, conheci o Brasil, as praias... Eu abandonei a carreira. Tanto que a idéia do tênis da capa foi minha, não foi de nenhum designer: “quero botar o tênis porque eu vou pegar a estrada quando ficar pronto, não quero mais seguir essa carreira!” E só voltei quando me senti mais maduro, tranqüilo como compositor, com um acervo de canções mais significativas. Música pra mim não é obrigação, é uma curtição, uma forma de expressão, não uma forma de pressão.
E você voltou à carreira com A Via Láctea, que é um disco cheio de sucessos. Quando você estava gravando, já tinha percebido que seria tão memorável? Quando eu voltei, quis pegar bacana, queria fazer uma coisa que fosse à altura daquele compositor que dividiu o disco com o Milton. Eu quis me colocar como um cara que fazia música legal, abrir caminhos, sugerir coisas... O disco “A Via Láctea” foi feito no capricho. O Milton me ajudou muito nesse disco, ele que fez a produção, foi muito legal comigo. Foi um disco que a gente ensaiou, tive tempo pra fazer as músicas, escolher o repertório, não foi igual o disco do tênis; aquela sangria desatada. Eu pude pensar em como ele poderia ser. O disco do tênis é mais caótico, o Via Láctea é mais cerebral, ele é inspirado, tem coisas legais. Até hoje muitas pessoas consideram o meu disco solo mais importante. Mais ou menos nessa mesma época foi o lançado o disco Os Borges, com toda a família reunida. Você participa pouco do disco, por quê? Eu participei pouquíssimo, foi idéia da minha cunhada, a primeira esposa do Marcio, percebendo que a família era ligada à musica, levou esse projeto pra gravadora. Toda a família foi pro Rio fazer o disco. Eu estava em turnê do Via Láctea, então participei pouco, quase exclusivamente nas minhas duas faixas, o Marilton, que é o mais velho, orientou a produção. Foi um disco da hierarquia e eu entrei como um cara que já tinha alcançado certo estrelato, estava em turnê e não tinha tempo pra entrar de cabeça. Participei como um convidado praticamente... E
por que a carreira de alguns de seus irmãos - como o Marilton
e a Solange - não foi pra frente? A voz da Solange é linda! Nos discos A Via Láctea e Nuvem Cigana você gravou músicas de novos compositores. Você acha que já tinha se tornado uma referência como compositor? Essas músicas são a sua cara. São coisas da sorte também, quando eu gravei “Chuva na Montanha” do Fernando Oly, que era um cara que eu conhecia aqui em BH, ele mostrou várias musicas e achei que essa tinha muito a ver com a atmosfera das minhas músicas. Quando gravei “A Força do Vento”, foi uma coisa mais causal ainda. Eu estava fazendo um show com o Beto Guedes em Juiz de Fora, num ginásio... os seguranças não deixando o publico entrar no camarim.. aquela coisa de show com grande publico. Um cara esticou a mão, conseguiu entregar uma fita e me disse: “escuta essa fita com sua sensibilidade de músico quando você chegar na sua casa”. Eu cheguei em casa e a primeira música era “A Força do Vento”... Eu estava me preparando para fazer o álbum Nuvem Cigana e liguei pro cara. Ele achou que era trote! (risos) Eu queria gravar a música, mas queria fazer meu arranjo. Enfim, ele ficou super feliz. Como você disse, sem saber, tinham pessoas fazendo músicas no estilo parecido que eu fazia, e tive a sorte de receber a fita dessas pessoas.
Seguindo na década de 80, você lançou o Sonho Real. A faixa-título faz muito sucesso até hoje, mas o disco é um pouco esquecido. Tem uma música em especial que eu adoro, “Feliz Aniversário”. É bem diferente... Essa música foi uma pecinha musical que eu compus no piano. Uma coisa bem parabéns pra você mesmo, só que com certa sofisticação harmônica. Foi uma brincadeira minha no piano que virou uma canção singela... Eu encontrei com o Ronaldo Bastos e a gente chegou à conclusão que parecia uma música de aniversário, pela delicadeza da harmonia. Aí resolvemos dar esse nome. E você canta junto com o Toninho Horta... É, eu convidei o Toninho, que já tinha me ajudado tanto no Clube da Esquina fazendo aquele solo maravilhoso de “Trem Azul” e outras coisas mais. E ele me ajudou muito nesse álbum, os arranjos de orquestra foram todos feitos por ele. Foi uma maneira de homenageá-lo convidar para cantar comigo a faixa. Aí você lançou um disco ao vivo e sumiu novamente. Por quê? Foram duas coisas. A vida foi me empurrando para outros caminhos e fiquei um pouco desgostoso com o mercado fonográfico, que começou a virar aquela coisa segmentada. Só aceitavam gravar um disco se fosse parecido com alguma coisa que estava fazendo sucesso... Foi um desrespeito total ao compositor que eu já era. Eu me afastei deliberadamente porque achava que não tinha espaço nas gravadoras... Naquele tempo não existia ainda internet, estúdio dentro de casa, essas facilidades que hoje a gente tem. Eu não parei de compor, nem de fazer shows, mas parei de fazer discos porque eu me incompatibilizei com a indústria fonográfica... E a recíproca era verdadeira também! Você retornou com “Meu Filme”, que é um disco bem acústico... As músicas são bem relaxantes. É meu segundo disco experimentalista. Eu queria que fosse um disco sem baixo e bateria, que priorizasse sempre os meus violões e as percussões. E convidei pra algumas percussões a oficina musical Uakti e o Marcos Suzano. É um disco de três pessoas praticamente, fora os produtores Chico Neves e Ronaldo Bastos. Tenho amigos que adoram esse disco, tem uma leveza... Eu fiquei satisfeito quando ele saiu. Tem muito tempo que não escuto, mas sempre que escuto acho interessante. É mais calmo, mas é interessante. É difícil ver um compositor depois de certo tempo de carreira lançar um disco assim, bem diferente. Isso é uma coisa que faz parte da minha personalidade musical, fazer discos diferentes uns dos outros. Eu já percebi que eu sou um pouco assim mesmo. Eu estou sempre buscando alguma coisa que eu não fiz ainda. Isso me interessa sempre na música, tentar não me repetir sem forçar... Essa frase não fica soando na minha cabeça, o que fica é: “isso aqui eu nunca fiz”. É o que me motiva a compor. Entre as músicas há “Sem Não”, uma parceria com o Caetano Veloso. Como foi compor com ele? Foi super legal, eu já tinha um contato pessoal com ele, mas de parceria foi o primeiro... Ele foi muito receptivo, eu tinha uma admiração de ídolo, desde a tropicália e eu não sabia que a admiração dele era muito grande por mim também. Ele abriu as portas da casa e me convidou pra almoçar, passar uma tarde. Depois eu fiz um convite, quando ele mandou a letra, pra gravar a música comigo. Foi muito legal a participação do Caetano nesse disco.
A partir do Meu Filme, você começou a compor com novos parceiros. O Chico Amaral, o pessoal do Radar Tantã... Foram pessoas que estavam surgindo da cena mineira pra cena nacional. Eu já gostava do Chiquinho Amaral, antes de ele fazer música com o Skank, dos shows que ele participava, é um saxofonista e pianista muito bom. Naquele momento eu achei interessante convidá-lo... Eu sou apaixonado pela aquela musica que eu gravei “Te Ver”, gostava muito da musica e da letra. Aí chamei o Chiquinho pra fazer uma letra, que foi a de “Meu Filme”, que deu título ao disco. Depois disso a gente costuma trabalhar junto até hoje. E a parceria com o Skank? Acho que a troca de idéias entre vocês foi excelente para ambos os trabalhos. Os últimos discos deles melhoraram bastante. Eu e o Samuel Rosa tivemos um encontro no aniversário do Chico Amaral. Ele ficou super emocionado, disse que era meu fã de carteirinha, que saiu dos três porquinhos direto pra Beatles e Clube da Esquina (risos). Eu era um cara muito importante na vida dele, apesar de aparentemente não ter uma influência direta na musica. Depois de um tempo, teve o casamento do Lelo Zanetti, aí ele veio falar: cara, além de ser seu fã, eu to querendo fazer um show junto com você! Topa? (risos) No show a gente inventava uma banda e misturava as canções do Skank com as minhas. Foi tudo idéia dele. A gente se dedicou bastante, ficamos uns quatro meses ensaiando. Eles fazendo tour no Brasil inteiro, eu fazendo muitos shows, nos intervalos das nossas agendas, a gente promovia esses ensaios. Fizemos cerca de 30 shows, foi um grande barato. Depois disso a gente se tornou parceiro de canções, mas antes foi no palco. A estréia foi comovente, as pessoas choravam na platéia, porque estavam ali duas gerações tocando tão afinadas e mostrando que a música está aí pra unir as pessoas e não pra separá-las. Esse encontro com o Samuel foi legal pra música do Skank e pra mim. A gente aprende com o mais novo também. E foi nesse clima que você lançou o disco Um Dia e Meio, mais rock, mais juvenil... Tem uma pegada bem legal. Exatamente, tem uma pegada mais rápida, mais ágil. Talvez aquele show com o Samuel já tenha influenciado o álbum, assim como os álbuns do Skank começaram a ficar diferentes também. Agora você aparece com o disco Bhanda. Uma coisa que eu percebi logo de cara foi a sonoridade jovem do disco. Você é um cara que a amadureceu, mas não perdeu o foco, continua fazendo um som novo. Eu sou um cara muito ligado, faz parte daquele momento da nossa conversa que eu disse que estou sempre procurando alguma coisa que eu não tenha feito, talvez isso traga uma novidade pra minha música. De certa forma, eu procuro um pouco a novidade, eu vou atrás dela no momento da concepção das canções. Isso me tornou um compositor que está sempre se renovando. No “Um Dia e Meio” tinham músicas bem diferentes com Tom Zé e Arnaldo Antunes. O perfil “Lô Borges compositor” eu estou sempre alterando, é uma diversão. É um trabalho de investigação, o mais incrível é que as idéias estão circulando dentro de você... A coisa que mais me inspira como compositor é quando eu vejo um instrumento desligado e ligo. É como se eu pudesse preencher o silencio com alguma música. O nome já indica, é um disco feito coletivamente, não? Foi um disco criado coletivamente, todo mundo tinha liberdade pra opinar sobre todos os arranjos, quando eu componho, cuido muito da parte das músicas, eu estou totalmente ligado no que a bateria vai fazer, no contrabaixo... Nos álbuns anteriores eu geralmente assinava os arranjos, nesse eu assino junto com a banda. Foi muito legal, acho que as pessoas foram bem escolhidas e eles me deram um apoio, as idéias foram se entrelaçando de uma forma tranqüila. Parecia que eu estava com o arranjo pronto. Tudo que eu pensava que eles poderiam fazer, eles faziam... Eu não precisava pedir. Foi um momento de maturidade meu, mas o que eu atribuo ao acerto da banda nos arranjos foi o fato de eu só ter apresentado as músicas na hora em que elas iam ser gravadas. E essa primeira leitura geralmente é a melhor.
Quando fica muito tempo lucubrando a música, às vezes acaba se perdendo. Eu chegava, gravava a base, fazia a voz guia e partia pra bateria, que eu não abria mão de ter minhas idéias. Em seguida ia todo mundo junto, cada um contribuindo com seu instrumento. E o resultado eu considero tão interessante que achei legal continuar. Já produzi mais nove músicas com esse pessoal. O Bhanda continuou, eu resolvi seguir trabalhando com esses caras. Foto de divulgação da Bhanda
Se for pra falar em banda, é preciso ressaltar uma figura que já está tocando com você há algum tempo; o guitarrista Giuliano Fernandes. Uma vez vi um show seu com o público pedindo canções bem obscuras. E ele encarava todas... O Giuliano é uma figura da maior categoria, sabe música como poucos. A gente costuma brincar, ele é professor da universidade de direito de Sete Lagoas. Ele fala que é professor universitário, mas é pós-doutorado na música de Lô Borges (risos). Eu faço as musicas e já sei o que ele vai fazer, porque ele já sabe o que eu quero que ele faça (risos). Foi um cara fundamental no disco Um dia e Meio e no Bhanda também. Especialmente na música “Nossa Mágica”, percebi uma influência grande do George Harrison. Aquele clima meio psicodélico... Também acho, “Nossa Mágica” tem um clima meio Harrison, Paul McCartney também. Qual é o seu Beatle favorito? Ah, meu Beatle favorito sempre foi o John Lennon, apesar de todo mundo sempre falar que o Paul McCartney era o mais musical... Eu acho um pouco de desrespeito ao Lennon, porque ele tem pérolas. Só que as músicas dele eram mais “estranhonicas”, mais malucas, faz parte da personalidade dele. Quando eu era garoto e fui ver “A Hard Day´s Night” com os quatro Beatles maravilhosos na tela, tinha que eleger um pra ficar olhando o tempo todo. E o Beatle que eu elegi aos dez anos de idade era o John Lennon. Acho que o Paul McCartney é o mais inspirado e o John Lennon é o mais pirado! (risos) Na letra de “Gira” tem citação ao Ira!. Eles já gravaram “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, você participou de shows deles... Como surgiu a canção? Foi bacana que eles resolveram gravar o “Girassol” e me chamaram pra participar de um show deles na MTV. Um belo dia eu estava em Bragança Paulista para fazer um show, e comecei a construir a musica. Achei que tinha alguma coisa a ver com o Ira!, aquela trama de violão e guitarra, e comentei com o Márcio Borges. Quando ele foi fazer a letra, deixou a citação. No disco a maioria das músicas é parceria com o Márcio... Ele ficou muito tempo morando fora de BH e agora voltou. Isso facilita os nossos encontros. Enquanto a gente estiver morando na mesma cidade, a chance de ele ser meu parceiro majoritário será muito grande, porque eu gosto muito do que ele escreve, e ele ta muito afinado com o que eu acho. Na
letra da canção “O Tempo É Esse”, aparecem
imagens do mundo atual, violento, cheio de polícia nas ruas,
a relação complicada de pais e filhos. Como é para
você, que viveu uma fase hippie na década de 70, sempre
gostou da estada, da liberdade, viver hoje nesse caos?
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