M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF
FRITZ LANG

por Alexandre Kobal
CinePlayers
O cineasta
alemão que negou emprego do próprio Hitler criou sua maior
obra-prima em 1931, com M – O Vampiro de Dusseldorf. É
verdade que cinco anos antes, em 1926, Fritz Lang dirigiu com maestria
técnica o futurista Metrópolis, mas é com M que
o mesmo diretor chegou ao que considero sua perfeição.
Inspirado claramente pelo Expressionismo Alemão (tendência
artística inspirada no temor ao desconhecido e ao sobrenatural),
cujos primeiros exemplos no cinema são filmes como O Gabinete
do Dr. Caligari e Nosferatu, M possui uma fotografia característica
do movimento, cheia de sombras e escuridão, e personagens misteriosos,
além de momentos aterrorizantes. O filme envelheceu um pouco,
é verdade, mas ainda pode ser considerado uma obra-prima magistral,
das maiores que o cinema já viu.
Fritz
Lang
M é reconhecido hoje como o primeiro grande filme da cinemateca
alemã. Originalmente, seria chamado de The Murders are Among
Us ("Os Assassinos estão Entre Nós"), o que
poderia ser considerada uma referência a um grupo Nazista da época.
Com medo de que reconhecessem tal referência, Fritz Lang acabou
alterando o título para “M”, da palavra Murders.
O filme foi baseado em um caso verídico, do assassino em série
Peter Kuerten, na mesma cidade de Dusseldorf do filme, embora o roteiro
tenha muitos elementos fictícios, e fala sobre um infanticida
que vem aterrorizando as mães daquela cidade (o assassino original
não matava crianças). O criminoso põe toda a força
policial e toda a população em alerta, e começa
a ser caçado intensamente, a ponto de chegar a atrapalhar os
negócios da máfia local, que passa a procurá-lo
sem parar também.
O filme é sensacional também no uso do som, possuindo
uma linguagem muito a frente de seu tempo. Lang foi um dos primeiros
cineastas a utilizar o som para ajudar a contar a história além
do que mostram as imagens. Frame parado, imagem suspensa, e o som continua
contando a história. Dessa forma foram criados momentos de suspense
e tensão inacreditáveis, como na cena em que o assassino,
acuado como um rato por seus perseguidores em um canto escuro (imagem
parada em sua expressão de medo) ouve o som deles cada vez mais
alto, e sabe que será inevitavelmente descoberto. O uso da música
In the Hall of the Mountain King, como marca registrada do assassino,
que a assobia enquanto anda calmamente pelas ruas, também ajuda
a criar um clima de suspense maravilhoso.

M,
embora não seja tecnicamente tão impressionante como Metrópolis
(na realidade é melhor, mas apenas por causa da evolução
natural do cinema, mas relativamente falando não é tão
revolucionário quanto), é mais interessante em termos
de narrativa, que aqui poucas vezes fica monótona (característica
comum em Metrópolis, por mais que os críticos em geral
o idolatrem). É a utilização da técnica
aliada a uma história de conteúdo importante. Sobretudo
o personagem de Peter Lorre, o assassino, que aparece apenas com destaque
na segunda metade do filme, é multidimensional e completo. Os
olhos do ator, atormentados na cena final, produzem um dos melhores
momentos do filme, para não dizer de todos os tempos no cinema,
sem exageros. É um momento único e forte, que retrata
toda a personalidade ambígua do personagem. Um dos assassinos
mais interessantes do cinema: perigoso e ingênuo, medroso, ao
mesmo tempo.
Como em Metrópolis, novamente o ser humano e suas emoções
são o ponto de suporte da história de um filme de Fritz
Lang. O diretor retrata o pior do ser humano: sua hipocrisia, arrogância,
como o assassino que acaba julgando o assassino, ou a acusação
da lei do homem com suas falhas óbvias que deixam assassinos
soltos, com a desculpa de que problemas mentais os deixam irresponsáveis
pelos seus atos (de qualquer forma, a lei do homem não traz as
vítimas de volta, como constata a mãe na maravilhosa e
tocante cena final). Seria o personagem de Lorre realmente um doente
mental, ou seu comportamento é apenas um artifício para
tentar se livrar da pena de morte? A carta que escreve aos jornais dá
indícios de que ele faz isso deliberadamente, por exemplo, embora
essa questão seja duvidosa.

Independente de questões sobre a perfeição (ou
não) do roteiro, M é sim um filme completo. Além
do clima de suspense, promovido evidentemente pela linguagem visual
e pelo seu próprio tema sinistro, das maravilhosas interpretações
(fora a figura do assassino, o filme não tem outro personagem
forte: todos os coadjuvantes têm sua importância para contar
a história), do estudo do comportamento humano, sobra ainda espaço
para o humor, obviamente que de forma leve, quase invisível.
Toda a cena em que os perseguidores da máfia perseguem o personagem
de Lorre na fábrica vazia é uma grande piada, no bom sentido.
Pelo menos pode ser vista desse jeito. Lá estão os 10
patetas (ou seja lá qual quantidade de pessoas for) tentando
caçar um rato das formas mais absurdas possíveis, para
não serem descobertos. E quando um deles é capturado pela
polícia, momentos depois, a cena do interrogatório pode
ser considerada no mínimo irônica: o gato virou o rato.
Fritz Lang, a frente do seu tempo, já acabara prevendo, de forma
bem sutil, os problemas que o Nazismo traria para o mundo. M serve,
porque não, como uma crítica sutil (não literal)
a esse regime ditatorial que, anos mais tarde, aterrorizaria meio mundo.
O diretor acabou sendo banido do seu próprio país, indo
parar em Hollywood, onde fez alguns ótimos filmes, como o noir
Os Corruptos, de 1953, considerado um dos melhores do gênero naquela
década. Mesmo assim nunca conseguiu igualar novamente M. Clássico
absoluto e necessário para se entender melhor esse cineasta dos
mais importantes. Mais de sete décadas depois, seu filme ainda
permanece impressionante.