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DONNY HATHAWAY
por Rafael Pesce Atenção! Texto ficcionalmente escrito em primeira pessoa. Os fatos são reais, a abordagem para chegar até eles nem sempre.
Foi em 1969 que a minha vez chegou. Primeiramente, gravei um single com June Conquest, chamado “I Thank You”. Não houve uma grande repercussão, mas, mesmo assim, King Curtis me convidou para trabalhar na Atlantic, que me ofereceu um contrato como artista solo. Minha primeira gravação com eles foi uma parceria com Leroy, “The Ghetto”, considerada por muitos a melhor música que eu já fiz. Na parada musical de R´n´b chegou apenas ao número 23, mas já era um bom começo. No ano de 1970 gravei o meu primeiro Long Play, Everything Is Everything. Durante três anos, passei a cantar ininterruptamente. Em 1971, lancei um álbum apenas chamado Donny Hathaway, e no ano seguinte, devido as inúmeras críticas positivas à minha performance em palco, coloquei nas prateleiras um disco ao vivo, Live. Ainda em 1972, recebi um convite irrecusável de Quincy Jones, e juntos fizemos a trilha do filme Come Back Charleston Blue. Porém, o auge do meu sucesso ainda não havia chegado, e o emblemático ano também não tinha acabado. A minha amiga de faculdade, Roberta Flack, foi a parceira que eu precisava. Lançamos um disco intitulado apenas com os nossos nomes, Roberta Flack & Donny Hathaway, e inclusive ganhamos um Grammy com a música “Where Is The Love”. Em 1973, fiz um disco ambicioso, Extension Of a Man, em que usei orquestrações magnânimas e compus canções que foram consideradas responsáveis por levar o Soul a um outro patamar. Porém, nem tudo estava bem na minha vida. Eu já era casado, e tinha duas filhas, mas sofria constantemente de depressão, inclusive sendo internado várias vezes em hospitais. Não tinha mais vontade de gravar, minha parceria com Roberta se desintegrou provisoriamente, e, após o lançamento do meu último disco, caí na obscuridade. Precisava encontrar algum sentido para a minha vida. A música passou a me acompanhar apenas em shows que eu fazia em pequenos clubes e no dia a dia de uma pequena companhia de produção que eu fundei. Cinco anos. Foi esse o período exato que durou a minha reclusão dos holofotes.
Em 1978,
eu aparentemente parecia bem para retornar aos grandes palcos. Neste
ano, minha dupla com Roberta Flack foi reeditada, e juntamente com ela
eu alcancei o meu maior sucesso comercial. O single “The Closer
I Get To You” chegou à segunda posição nas
paradas de sucesso. Tudo se encaminhava para um retorno triunfal, mas
quem sabe a minha volta não tenha sido apropriada, ou então
a fama não iria me fazer bem novamente. Por nosso último
compacto, Roberta e eu fomos indicados a mais um Grammy, mas eu não
viveria tempo suficiente para estar presente na cerimônia. No
dia 13 de Janeiro de 1979, eu estava na cidade de Nova Iorque, jantando
com minha parceira de duetos e meu empresário, David Franklin.
Após a refeição, me dirigi pelas escuras ruas da
cidade americana em direção ao meu hotel. Chegando ao
meu quarto, removi cuidadosamente o vidro de proteção
da janela, e o vento gelado veio de encontro ao meu rosto. Inconscientemente,
a minha canção “We All Be Free” tocava em
minha mente, e em um súbito instante, saltei do décimo
quinto andar do hotel. Um vôo sem volta, uma morte sem explicação.
A partir deste dia, o mundo nunca mais pôde ouvir a minha voz,
porém, os meus cantos finalmente encontraram um acompanhamento
perfeito: o céu ao fundo, e os anjos ao meu lado.
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