DONNY HATHAWAY
A TRISTE TRAJETÓRIA DE UM MITO



 

 

por Rafael Pesce

pesce.rafael@gmail.com

Atenção! Texto ficcionalmente escrito em primeira pessoa. Os fatos são reais, a abordagem para chegar até eles nem sempre.


Era o primeiro dia do mês de Outubro. O ano em questão era 1945, um período de mudanças pós-segunda guerra mundial. Na cidade de Chicago, minha mãe, Drusella Huntley, deu à luz a uma nova vida. Donny Hathaway é o meu nome, e antes de Deus permitir que eu viesse a este mundo, ele me deixou um dom, a minha voz. Após meu nascimento, não demorou muito para mamãe se mudar comigo para St. Louis, onde minha avó Martha Pitts nos acolheu. Vovó era uma cantora Gospel, e os meus primeiros anos de vida se passaram dentro da igreja, vendo-a cantar belamente. Mas um dia em especial, eu resolvi não ficar apenas a observando, e perguntei para minha mãe se podia subir lá no altar e cantar uma canção. Eu tinha três anos de idade, não conseguia nem pronunciar as palavras corretamente, porém acompanhei o ritmo e a melodia de “How Much I Owe, Love Divine”. Em pouco tempo, eu já era um prodígio da música religiosa, e comecei a me apresentar sob o nome de Donny Pitts. Aquela primeira canção foi responsável por uma reação em cadeia, que serviu para aumentar cada vez mais o meu amor pela música. Aprendi a tocar instrumentos de percussão, mas me aperfeiçoei mesmo no piano. Na minha adolescência, a minha capacidade artística acabou me proporcionando a chance de ter um estudo musical de qualidade, na Universidade de Howard. O mais importante neste período não foi a aprendizagem acadêmica, já que não cheguei a terminar a faculdade, mas sim as amizades que eu fiz lá. Três pessoas muito importantes na minha vida apareceram nos corredores daquela instituição: Roberta Flack, meu futuro par de duetos, Leroy Hutson, meu parceiro em algumas composições, e minha futura esposa, Eulaulah. Nesta mesma época, eu estava tocando com o Rick Powell Trio, e as coisas financeiramente começavam a dar certo para mim. Com o respaldo deste sucesso momentâneo, recebi uma chance de Curtis Mayfield, que me convidou para ser produtor. Trabalhei em dois dos selos mais famosos de todos os tempos, Chess e Stax. Produzi muita gente de talento, incluindo a rainha do Soul, Aretha Franklin, o maravilhoso grupo Staples Singers, Carla Thomas e Jerry Butler. Porém, o que eu realmente queria era que a minha voz fosse ouvida. Eu não havia nascido para ficar atrás de uma cabine olhando o talento dos outros, afinal, eu tinha o meu dom, e eu queria que o mundo o ouvisse.

 

 

Foi em 1969 que a minha vez chegou. Primeiramente, gravei um single com June Conquest, chamado “I Thank You”. Não houve uma grande repercussão, mas, mesmo assim, King Curtis me convidou para trabalhar na Atlantic, que me ofereceu um contrato como artista solo. Minha primeira gravação com eles foi uma parceria com Leroy, “The Ghetto”, considerada por muitos a melhor música que eu já fiz. Na parada musical de R´n´b chegou apenas ao número 23, mas já era um bom começo. No ano de 1970 gravei o meu primeiro Long Play, Everything Is Everything. Durante três anos, passei a cantar ininterruptamente. Em 1971, lancei um álbum apenas chamado Donny Hathaway, e no ano seguinte, devido as inúmeras críticas positivas à minha performance em palco, coloquei nas prateleiras um disco ao vivo, Live. Ainda em 1972, recebi um convite irrecusável de Quincy Jones, e juntos fizemos a trilha do filme Come Back Charleston Blue. Porém, o auge do meu sucesso ainda não havia chegado, e o emblemático ano também não tinha acabado. A minha amiga de faculdade, Roberta Flack, foi a parceira que eu precisava. Lançamos um disco intitulado apenas com os nossos nomes, Roberta Flack & Donny Hathaway, e inclusive ganhamos um Grammy com a música “Where Is The Love”. Em 1973, fiz um disco ambicioso, Extension Of a Man, em que usei orquestrações magnânimas e compus canções que foram consideradas responsáveis por levar o Soul a um outro patamar. Porém, nem tudo estava bem na minha vida. Eu já era casado, e tinha duas filhas, mas sofria constantemente de depressão, inclusive sendo internado várias vezes em hospitais. Não tinha mais vontade de gravar, minha parceria com Roberta se desintegrou provisoriamente, e, após o lançamento do meu último disco, caí na obscuridade. Precisava encontrar algum sentido para a minha vida. A música passou a me acompanhar apenas em shows que eu fazia em pequenos clubes e no dia a dia de uma pequena companhia de produção que eu fundei. Cinco anos. Foi esse o período exato que durou a minha reclusão dos holofotes.

 

 

Em 1978, eu aparentemente parecia bem para retornar aos grandes palcos. Neste ano, minha dupla com Roberta Flack foi reeditada, e juntamente com ela eu alcancei o meu maior sucesso comercial. O single “The Closer I Get To You” chegou à segunda posição nas paradas de sucesso. Tudo se encaminhava para um retorno triunfal, mas quem sabe a minha volta não tenha sido apropriada, ou então a fama não iria me fazer bem novamente. Por nosso último compacto, Roberta e eu fomos indicados a mais um Grammy, mas eu não viveria tempo suficiente para estar presente na cerimônia. No dia 13 de Janeiro de 1979, eu estava na cidade de Nova Iorque, jantando com minha parceira de duetos e meu empresário, David Franklin. Após a refeição, me dirigi pelas escuras ruas da cidade americana em direção ao meu hotel. Chegando ao meu quarto, removi cuidadosamente o vidro de proteção da janela, e o vento gelado veio de encontro ao meu rosto. Inconscientemente, a minha canção “We All Be Free” tocava em minha mente, e em um súbito instante, saltei do décimo quinto andar do hotel. Um vôo sem volta, uma morte sem explicação. A partir deste dia, o mundo nunca mais pôde ouvir a minha voz, porém, os meus cantos finalmente encontraram um acompanhamento perfeito: o céu ao fundo, e os anjos ao meu lado.


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