LÔ BORGES
DISCOGRAFIA

 


por Leonardo Bomfim

imagens: Museu Clube da Esquina

 

Clube da Esquina - 1972

Lô Borges estreou como compositor em 1970, em álbuns de Milton Nascimento (Para Lennon & McCartney, Clube da Esquina, Alunar) e do grupo Som Imaginário (Feira Moderna). Seu debut em disco aconteceu dois anos depois ao lado de Milton no hoje clássico Clube da Esquina. O garoto não se intimidou e tomou o disco pra ele; as canções mais inventivas e apaixonantes são de sua autoria. “Trem Azul”, melancolia banhada pelo sol; “Um Girassol da Cor de Seu Cabelo”, balada ao piano e orquestração doida de Eumir Deodato; “Trem de Doido” e sua loucura fuzz e a doce pérola pop “Paisagem na Janela” são os destaques na sua voz. Por outro lado, algumas das melhores faixas de Milton também foram compostas por Lô. A abertura com “Tudo o Que Você Podia Ser” traz o violão dissonante do jovem marcando a base perfeita para Milton soltar a voz. “Clube da Esquina 2” e a vinheta anterior “Estrelas” são mantras cheios de solfejos, coros e sons espaciais. Já “Nuvem Cigana”, pérola psicodélica do disco, é entoada por Bituca enquanto Lô se dedica às palhetadas de sua guitarra. Lô Borges e Beto Guedes chegaram aos estúdios com palhetas, Beatles, guitarras distorcidas, rock progressivo e deram uma cara diferente à música brasileira daquele momento. Foi um período pós-Tropicália em que era preciso muita personalidade para sobreviver musicalmente. E isso, esses mineiros tinham de sobra!

 

Lô Borges – 1972

O famoso disco do tênis foi gravado logo em seguida ao lançamento de Clube da Esquina. Suas músicas foram compostas na correria, fato que ajudou a transformá-lo em uma obra única da música brasileira. O vigoroso e distorcido blues rock “Você Fica Bem Melhor” abre o disco e até engana. O que segue, no entanto, é baseado em canções folk, com alguns delírios psicodélicos. “Canção Postal” parte de notas tristes ao violão e descamba em vocais influenciados por “Because” dos Beatles. A belíssima “O Caçador”, com seu lirismo e guitarras oitavadas, traz o parentesco com a doce melancolia de “Trem Azul”. Músicas completamente piradas como “Não Foi Nada”, “Pra Onde Vai Você” e “Aos Barões” se equilibram ao lado das pérolas sonhadoras “Pensa Você”, “Faça Seu Jogo” e “Não Se Apague Esta Noite”. Para completar, há ainda peças instrumentais (“Fio da Navalha”, “Calibre”, “Toda Essa Água”) e grandes momentos voz e violão (“Como o Machado” e “Eu Sou o Que Você É”). É um disco que fala muito de sonhos, de estrada, da liberdade, da mesma forma que sempre traz à tona o sangue. Afinal, eram os anos mais tenebrosos da ditadura militar.

 

A Via Láctea – 1979

A grande obra-prima de Lô Borges. O que dizer de um disco que traz entre as suas onze canções “Ela”, “Equatorial”, “Clube da Esquina 2”, “Vento de Maio”, “Chuva na Montanha”, “Tudo o Que Você Podia ser”, “Sempre-Viva”, além da faixa-título. Lô ficou sete anos sem lançar nada e para compensar voltou com uma coleção incrível de sucessos, daqueles que ele precisa tocar no show senão o público não vai embora. Foi aí, em músicas como a nova versão para “Clube da Esquina 2” ou na apaixonada “Ela”, que ele consolidou uma de suas marcas registradas; Alegria e melancolia em doses homogêneas, melodias ensolaradas com uma leveza incrível. E já estava fazendo escola; “Chuva Na Montanha” de Fernando Oly e “Vento de Maio” de seus irmãos Telo e Márcio, são a sua cara. No mais, é um disco que deve ser pouco falado e muito escutado. A prova viva de que um sonho nunca envelhece.

 

Os Borges – 1980

Lô participou pouco no antológico disco gravada por sua família. Estão lá dona Maricota, seu Salomão e os filhos Marilton, Solange, Telo, Nico, Yé, Márcio e Lô. Certa vez Elis Regina, ao encontrar-se com Maricota, soltou a pérola: “você é fabulosa, só pariu gênio!” O disco comprova a afirmação da pimentinha com canções pra lá de inspiradas como “Carona”, “Um Sonho na Correnteza”, “Outro Cais” (com vocal sensacional da própria Elis) e “Qualquer Caminho”. Lô dá as caras, retomando a folk-song do disco do tênis “Eu Sou Como Você É”, em versão mais empolgada, e soltando a voz na ótima “No Tom de Sempre”. Seria errado dizer que este disco é discoteca básica, pois a família Borges – seja cantando em shows, pileques, festas ou álbuns - é sempre discoteca básica.

 

Nuvem Cigana – 1981

O terceiro disco solo de Lô traz a continuação da sonoridade bonita de A Via Láctea, apesar de mostrar canções mais diversificadas. O empolgante começo com “Todo Prazer” ganha ressonância em outras canções animadas como “Vida Nova” e “Ritatá”, esta de Telo Borges. O lado folk do disco do tênis surge novamente com lindíssima “Uma Canção”, enquanto a maravilhosa “A Força do Vento”, de Rogério Duarte, remete aos sucessos do disco anterior. “Nuvem Cigana”, interpretada por Bituca no Clube da Esquina, ganha aqui boa versão de Lô. Aliás, Milton participa discretamente em “Viver, Verá”. O disco também traz temas instrumentais, a guitarreira “Vai, Vai, Vai” e o chorinho “O Choro”. É interessante que Lô Borges tenha lançado um disco bastante harmonioso e cheio de canções inspiradas, exatamente no período em que a maioria dos artistas que surgiram nas décadas de 60 e 70 começou a se perder em uma horrível sonoridade oitentista.

 

Sonho Real – 1984

Sonho Real é o disco mais 80´s de Lô Borges. Os característicos teclados tomam conta da obra, mas não apagam a qualidade da maioria das canções. A faixa-título é uma das pérolas de sua carreira, de letra extremamente apaixonada, perfeita para embalar amores. Outras excelentes canções como “Tempestade”, “Bom Sinal”, ambas de Telo Borges (a essa altura um dos principais parceiros de Lô, compositor constante desde “Vento de Maio”), “Nenhum Mistério” e “Arma Branca” destacam-se no repertório. No entanto, a valsinha tristonha “Feliz Aniversário”, com a presença da voz de Toninho Horta, é que arrepia. Emocionante de tão singela. A parceria com Ronaldo Bastos, responsável também pela produção, foi um dos grandes trunfos do disco. Em Sonho Real Lô Borges mostrou sua faceta mais pop sem perder a categoria.

 

Solo – Ao Vivo – 1987

O único registro ao vivo de Lô Borges é o seu grande lado b da carreira. Foi um show gravado no Rio de Janeiro, só com Lô cantando e tocando guitarra/violão e seu irmão Marilton nos teclados. Canções antigas como “Trem de Doido”, “Caçador” e “Faça Seu Jogo” ganharam versões bem mais intimistas. Outros pontos positivos foram as versões para “Um Sonho na Correnteza”, com belíssima interpretação em dupla com Milton Nascimento, e “Equatorial” embalada por um empolgante violão. Vale a pena procurar este disco.

Meu Filme – 1996

Lô Borges ficou mais de dez anos sem gravar um disco de estúdio após “Sonho Real”. “Meu Filme” é um retorno em grande estilo, totalmente folk, só com violão, guitarras harmoniosas e percussões, detalhe que deixou canções com uma sonoridade muito interessante. Músicas como “Pura Paisagem”, “Sem Não” (parceria com Caetano Veloso, que canta no disco) e “Vertigem” estão entre as melhores de sua carreira. Foi em “Meu Filme” que ele começou a compor com a nova geração mineira, com a letra faixa-título assinada por Chico Amaral. Na letra da linda “A Cara do Sol” Lô afirma: “a minha esquina é com você“. A essa altura, aquela esquina que começou na década de 70 já tinha inspirado duas gerações. E Lô não ficou parado no tempo, “Meu Filme” é uma grata surpresa para quem só conhece o seu repertório dos primeiros anos.

 

Feira Moderna – 2001

Talvez o disco mais dispensável da carreira de Lô. “Feira Moderna” fez parte de um projeto da Sony, que pouco antes tinha feito o mesmo com Beto Guedes. É um disco de regravações, músicas de vários períodos com uma roupagem mais moderna. Logicamente, a grande maioria ficou aquém das originais. Vale pelas gravações de “Feira Moderna”, “Fé Cega Faca Amolada” e “A Página do Relâmpago Elétrico”, as únicas “inéditas” do disco.

 

Um Dia e Meio

Em 2003, Lô já tinha desenvolvido novas parcerias com Samuel Rosa e o pessoal do Radar Tantã. O reflexo dessa aproximação ao pessoal da nova geração mineira aparece em “Um Dia E Meio”. É um disco mais roqueiro, com uma pegada dançante em várias músicas, e arranjos simples para banda. Há parcerias inusitadas com Tom Zé, na psicodélica “Açúcar Sugar” e com Arnaldo Antunes, na bela “Por Que Não?”. Os melhores momentos, no entanto, são as memoráveis e empolgantes “Um Dia e Meio” e “Olá Como Vai?”. Temas mais suaves como a beatlemaníaca “Tudo Em Cores Pra Você”, com guitarras bem sacadas, e a balada “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor” fazem o belo contraponto. Um disco de alma jovem.

 

Bhanda – 2006

Lançado no comecinho de 2007, Bhanda traz os arranjos simples do disco anterior, mas com a presença de canções, no geral, ainda mais inspiradas. O lado mais roqueiro também saiu um pouco de cena. Aparece aqui, principalmente, a sua veia folk-rock psicodélica. O piano de “Universo Paralelo” e o som hipnótico de “Nossa Mágica” confirmam: a velha influência dos Beatles também surge em grandes doses. “Gira”, com citação ao grupo paulistano Ira!, remete ao lirismo do Clube da Esquina (se tivesse a voz de Beto Guedes ali nos backings até poderia enganar!); “Segundas Mornas Intenções”, de suavidade acústica, e a linda balada “Carnaval de Cor” são grandes destaques também. Bhanda foi feito todo coletivamente e indica como é o show atual de Lô Borges, com um entrosamento bem legal entre os músicos. Aliás, mesmo após o lançamento do disco, as gravações continuaram. Quem sabe logo logo não surge mais uma novidade de Lô Borges nas lojas. Espero!




 
     

 

 
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