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ORLANDO DIAS
por Matheus Trunk ** Artigo dedicado a seu Jorge Luis, bravo guerreiro, que teve a honra de conhecer pessoalmente esse cantor extraordinário.
A história
da música brasileira é sempre contada de forma seletiva.
No período do final dos anos 50 e início dos 60, a coisa
fica extremamente grave. A nossa música é dividida em
dois grupos pelos historiadores. Um é o dos artistas tradicionais
(intérpretes e compositores de gêneros regionais como o
samba e o forró) e o outro dos modernos (cantores e letristas
identificados com a Bossa Nova). O inusitado
é lembrar que quem sustentava todo mercado fonográfico
da época não eram os integrantes de nenhum dos dois grupos.
E sim os cantores românticos herdeiros do samba-canção.
Eram conhecidos pela crítica da época como “bregas”
ou “cafonas”. São eles Anísio Silva, Altemar
Dutra, Roberto Luna, Carlos Nobre e o genial Orlando Dias. Nascido
em Recife-PE em 1923, Adaulto Michiles, ganhou fama nacionalmente com
o pseudônimo de Orlando Dias. Iniciou-se na carreira artística
tentando a sorte nas rádios do Rio de Janeiro. Sem conseguir
sucesso, retornou a sua terra natal. Já se conformando sem o
sonho de cantor se casa, e passando a viver de outro tipo de atividade,
não ligada a música. No final da década de 40,
porém tudo muda quando Orlando sua esposa grávida de seu
primeiro filho morre e ele se torna viúvo. O fato o marcaria
profundamente, e o faria voltar a tentar a vida artística. Retornou
ao Rio de forma definitiva no início dos anos 50. Mas o sucesso
só veio em 1958, quando ele começou a gravar canções
no estilo que o consagraria: o bolero romântico. Três anos
depois, Orlando gravaria seu maior sucesso a canção “Tenho
Ciúmes de Tudo”, composta por Waldir Machado. Tema romântico
comum da época, a música conta a história de um
homem perdidamente apaixonado e que tem ciúmes de tudo da amada:
“Tenho ciúme do sol, do luar e do mar, tenho ciúme
de tudo/ Tenho ciúme até, da roupa que tu vestes”.
O primeiro LP do cantor viria em 1963 (Se a Vida de Fosse Um Sonho Bom”)
pela Odeon. Orlando
não obteve seu sucesso somente por suas canções
e por sua voz imponente, mas também por suas diversas características
próprias que o tornaram um intérprete diferenciado. Durante
os shows, ele sempre cantava usando um lencinho branco, e falando ao
público feminino seu lema: “Obrigado minhas fãs,
obrigado”. Muitas vezes, penteava os cabelos enquanto cantava
e fingia arrancar um coração do peito, o dando ao público
feminino. Também durante suas as apresentações,
realmente incorporando os personagens das canções, chegava
a se ajoelhar no palco. Continuando
em shows por todo país sempre com grande êxito, o cantor
trocou a Odeon pela Copacabana nos finais dos anos 70. Por esta nova
casa, gravou alguns discos e emplacou novos sucessos como “Com
A Pedra Na Mão”, “Coração Azedo”,
“Eu e o Lencinho Branco”, entre outras. Embora
um pouco afastado da mídia, continuou se apresentando até
sua morte causada por um infarto em 2002. O cantor tinha então
78 anos e residia na Ilha do Governador, estado do Rio de Janeiro. Estima-se
que ao todo, Orlando Dias tenha vendido cerca de seis milhões
de discos por toda sua carreira. Também, se tem dados que ele
vendia cerca de 100 mil exemplares de cada disco de 78 rotações
lançados por ele (equivalente hoje a um milhão de cópias
por disco). Seu sucesso era tanto que ele ficou conhecido como “o
cantor mais popular do Brasil”. No período
de maior êxito de sua carreira (primeira metade dos anos 60),
esteve sempre na parada de sucessos e na gravadora Odeon. Ele e Anísio
Silva eram os maiores vendedores da fábrica no período
e assim a gravadora podia se dar ao luxo de ter outros cantores que
embora não vendessem tanto tinham grande prestígio com
a crítica. Entre esses artistas, estavam a cantora Silvia Telles,
o violonista Luiz Bonfá e o baiano João Gilberto. Ou seja:
eram os tidos como “bregas” ou “cafonas” que
sustentavam os “cults” ou de “bom nível cultural”. Dono de
um estilo inconfundível e marcante, Orlando nunca foi reconhecido
pela crítica especializada. Alguns apresentadores de televisão
chegaram a quebrar seus discos em programas o desaconselhando ao público.
Tudo em vão, se lembrarmos que ele foi um dos maiores vendedores
de discos do Brasil. Em resposta a eles, ele ironizou todos os oponentes
na canção “Eu e o Lencinho Branco” com os
dizeres: “Eu voltei/ Outra vez pra ocupar o meu lugar/ E você
que tentou me destruir/ Eu pergunto onde você está ? /(...)
Tenho outra vez/ O povo querido ao meu lado/ E é por isso que
canto feliz/ Obrigado minhas fãs, obrigado”. Pode-se
observar o preconceito a Dias numa matéria publicada em 19 de
janeiro de 1975, pelo crítico musical Aramis Millarch no jornal
“Estado do Paraná”. Primeiro ele informa do lançamento
do novo LP naquele ano: “A Odeon decidiu ressuscitar há
alguns meses o cantor (...)”. Após comentar o histórico
do intérprete, Millarch ironiza o fato da regravação
do clássico “Luar do Sertão” de Catulo da
Paixão Cearense por Dias: “Não há dúvida
que o compositor maranhense deve estar se virando no túmulo”. A ironia
também é feita pelo jornalista Rodrigo Fauor no site Cliquemusic
décadas depois comentando o lançamento de uma coletânea
do cantor pernambucano no dia 22 de agosto de 2001: “Exagerado
(...) com um timbre comum e pesado (mais de cinco músicas ninguém
consegue escutar)”. Note-se que mesmo passados mais de vinte e
cinco anos, as críticas são de mesma opinião: desaconselham
o cantor pernambucano ao público. Seja pelo número de álbuns vendidos durante sua vida artística e mesmo pela admiração de seus fãs, que criaram até comunidade noOrkut a ele , Orlando Dias continua sendo admirado e tendo fãs. Porém, ao mesmo tempo como visto no parágrafo anterior ele permanece desprezando pela crítica especializada. Tem-se infelizmente, o caso de um artista que como sugere esse artigo é um dos cantores mais populares do Brasil e ao mesmo tempo um dos mais esquecidos.
Onde
escutar Orlando Dias ? A EMI (gravadora que detém todo acervo do artista) a mando dos críticos que não escutam um álbum inteiro, nunca relançou nenhum dos discos originais de Dias. Clássicos como “Ninguém Gostou de Alguém” e “Tu Hás de Pensar Em Mim”, venderam horrores no início dos anos 60 e sustentaram a mesma fábrica, que hoje despreza o artista. Atualmente a situação se tornou mais dramática: a gravadora não mantém em catálogo sequer uma coletânea caça-níqueis de “melhores”. Porém, em algumas lojas de CD´s de grande acervo é possível achar algumas coletâneas antigas do intérprete pernambucano.
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