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2° FESTIVAL DE CINEMA
FANTÁSTICO
por Leonardo Bomfim Na maioria das vezes as continuações das produções de horror trazem desagradáveis surpresas. Muita repetição, roteiros piorados e exageros podem acabar com a honra dos originais. Para a sorte dos zumbis porto-alegrenses, isso não ocorreu com a segunda edição do Festival de Cinema Fantástico, realizada em outubro de 2006. Aliás, ao contrário das seqüências cinematográficas (que geralmente aparecem como um caça níquel desgraçado), o evento partiu da corajosa iniciativa dos organizadores; afinal, é o único festival do país a mostrar pérolas que vão de Zé do Caixão até Takashi Miike. Neste ano, a programação foi dividida em três locais: a Usina do Gasômetro, a Casa de Cultura Mário Quintana e o Santander Cultural. Na Usina do Gasômetro foi exibida em primeira mão a série Masters of Horror, com episódios dirigidos por gente do quilate de Dario Argento, Takashi Miike e John Landis. Os grandes destaques da sala, no entanto, foram Meet The Feebles, de Peter Jackson e Quem Pode Matar Uma Criança? De Narciso Ibáñez Serrador.
Meet The Feebles é uma sátira demente ao famoso seriado norte-americano Muppet Show, que encantou várias gerações de crianças em todo o mundo. No lugar de “Piggie”, “Caco” e “Animal”, aparecem entre outros personagens bizarros, Heidi - uma hipopótamo obesa e alcoólatra; Harry - um coelhinho decadente e doente e Trevor - uma ratazana que dirige filmes pornôs. Toda a história se passa nos bastidores do show de variedades dos Feebles, que por trás do panos esconde episódios envolvendo prostituição, drogas, tráfico, adultério, AIDS, pornografia, alcoolismo, homossexualismo e assassinato. Entre as diversas seqüências memoráveis, está a performance de Sebastian, um cão homossexual que dirige o show, improvisando no palco uma canção chamada “Sodomy”. Também vale destacar a mosca jornalista que vive se escondendo nos vasos sanitários para conseguir os furos de reportagem dos bastidores do espetáculo. Se para o grande público Peter Jackson é aquele gordinho de barba que dirigiu as mega produções O Senhor dos Anéis e King Kong, para os fanáticos por filmes bizarros o neozelandês surge como um dos maiores nomes do final da década de 80; seus três primeiros filmes - Bad Taste, Meet The Feebles e Fome Animal – merecem lugar no topo do cine trash de todos os tempos. Ao contrário da avacalhação total de Meet The Feebles, Quem Poderá Matar Uma Criança traz nas primeiras seqüências fortes imagens documentais de crianças miseráveis do mundo inteiro. Há pequenos japoneses, africanos, judeus... Todos vítimas da inconseqüência do homem adulto. Após o magistral (e original) começo, a história se desenvolve com um casal que resolve passar as férias em uma pequena ilha na Espanha. Ao chegar à ilha, eles percebem que algo de estranho está acontecendo ali; simplesmente nenhum adulto aparece, apenas algumas crianças de sorriso tímido e olhar fechado. Quando o casal descobre o perigo que está passando naquele lugar já é tarde demais: as crianças, completamente insanas, resolveram se reunir para matar todos os adultos da ilha. O toque de mestre do roteiro do uruguaio Narciso Ibanez Serrados (adaptado de um romance de Juan José Plans) é o automático link que ele faz com as imagens iniciais. As crianças da ilha matam sem nenhum motivo aparente, mas o inconsciente de espectador atenta para o sofrimento que milhares de outras crianças viveram ao longo dos tempos. E ainda por cima, surge a dúvida que dá nome ao filme. Por mais que este ato resulte na salvação da própria vida; quem poderá matar uma criança?
Mantendo o clima infantil, a programação da sala do Santander Cultural exibiu o recente A Grande Guerra Yokai, do japonês Takashi Miike. O filme, de 2005, mostra a aventura de um garoto que passa a conviver com espíritos folclóricos do Japão. Os grandes trunfos são os efeitos especiais sob medida e a acidez crítica do diretor, que aproveita uma história com tons milenares para debochar da publicidade agressiva do novo século. Também baseado em histórias folclóricas é o clássico Viy da dupla Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov. O belo filme de 1967 comprova que assombração na Rússia só aparece a partir do décimo gole de Vodka. Outro filme que dialoga com temas folclóricos é Magia Negra de Hong Kong. A trama dirigida por Meng Hwa Ho é repleta de vodus e referências à bruxaria. O destaque fica por conta da trilha sonora deliciosamente 70´s (o filme é de 1975), em sintonia com os melhores temas da exploitation setentona. Dois dos filmes apresentados no Santander terminaram o festival como os favoritos de muita gente: Os Olhos Da Cidade São Meus e o famigerado Holocausto Canibal. O primeiro, cult movie do espanhol Bigas Luna de 1987, prova que o gênero terror ainda pode ser explorado de várias maneiras. O que no princípio aparenta ser um thriller banal sobre um médico psicopata, ganha ares de surrealismo absurdo quando uma cena de hipnose passa dos dez minutos de duração. Repentinamente surge uma sala de cinema. É o filme dentro do filme, a hipnose continua, as pessoas na(s) sala(s) começam a se sentir desconfortáveis… paranóicos… assassinos. Tudo complica ainda mais quando o médico psicopata do primeiro filme resolve ir ao cinema. Em frente aos olhos do espectador há três salas de cinema, muita gente morrendo e um medo incrível de qualquer figura que resolva ir ao banheiro no meio da sessão. Um filme indescritível que poderia ganhar o subtítulo “matou o cinema e foi à família”.
Holocausto Canibal fez a festa dos adoradores de vísceras devoradas, animais mortos a pauladas, índias estupradas e outras cenas doces no estilo. A sessão comentada por Thomaz Albornoz, Christian Verardi e Marcelo Carrard (completamente lotada) foi certamente um dos grandes marcos culturais de 2006 em Porto Alegre. Para completar, havia até um monstro com um cutelo circulando pela sala de cinema. O filme, dirigido pelo italiano Ruggero Deodato, é o ápice do gênero, que especialmente na Itália, botou índios canibais para devorar tudo quanto é tipo de gente. O legal é que Holocausto Canibal não fica apenas na brutalidade, tendo um roteiro muito bem bolado, com direito a flashbacks movidos por cenas de arquivo (esta estrutura rendeu o apelido de ´O Cidadão Kane dos filmes de canibais´). A trama é simples: Um antropólogo vai para a Amazônia procurar uma equipe de documentaristas que está desaparecida e acha apenas as câmeras com os filmes. As cenas registradas pela equipe são tão perversas e reais que Deodato precisou provar na justiça que não tinha matado nenhum ator, já que na época do lançamento a publicidade do filme dizia que aquilo se tratava de uma história real. Na verdade, o único lado real do filme é o questionamento sobre barbárie e civilização. Holocausto Canibal é o tipo do filme que faz o estômago embrulhar e o cérebro pensar. O ponto alto do festival foi a homenagem ao mestre dos mestres José Mojica Marins na sala de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana, com a exibição de três filmes em película restaurada – À Meia Noite Levarei Sua Alma, Esta Noite Encarnarei No Seu Cadáver e o orgasmático O Ritual dos Sádicos. Os dois primeiros filmes de Mojica, respectivamente de 1964 e 1967, obras inaugurais do errante terror brasileiro, trazem o personagem Zé do Caixão negando não só Deus como qualquer força inexistente que possa limitar um ser humano. Filosofia pura, escrita por um cara pobre e inculto que chegou a colar negativos para poder realizar seus filmes. É lógico que o Brasil careta não admitiu a tremenda ousadia daquele sujeito magrelo e tosco. Sobre esta primeira fase (que será completada com o recém finalizado “O Despertar da Besta”) pego uma frase sensacional do sempre polêmico Rogério Sganzerla: “de boa fé, eu troco 20 anos de cinema paulista por 20 segundos em que Zé do Caixão, fugindo na floresta de papelão, abre os braços, a capa e grita: a quem pertence a terra? A Deus? Ao Demônio? Ou aos espíritos desencarnados?”
Se José Mojica Marins tivesse parado por aí (como queria muita gente), seu nome já deveria ficar no hall dos mestres do cinema brasileiro. Porém, mesmo após diversas produções picotadas, o diretor seguiu firme e resolveu mandar tudo pelos ares com um filme inigualável até hoje em nosso cinema: Ritual dos Sádicos, obra completamente banida, censurada, proibida e esquecida nos porões da ditadura. Em uma das primeiras seqüências aparece uma orgia altamente profana sob os efeitos da marijuana, resultando em um assassinato brutal. Em outra cena, o pé em primeiro plano é perfurado por uma agulha. Ainda é mais absurda a cena em que uma senhora observa um empregado transando com a filha enquanto se excita acariciando a cabeça de um pônei. Essas e outras seqüências independentes mostram o falso moralismo da sociedade brasileira do final dos sixties. Eis que um psiquiatra resolve testar o novato LSD em quatro viciados, a fim de estudar os efeitos da droga baseados na imagem do Zé do Caixão. Memorável é quando Zé aparece no programa de auditório “Quem Tem Medo da Verdade” e afirma “fazer cinema no Brasil é mais difícil que mandar um homem à lua”. José Mojica sabia como ninguém das dificuldades de filmar no Brasil e mesmo assim fez um dos filmes mais arrebatadores da época. Roger Corman, Jack Nicholson, Michelangelo Antonioni, entre outros, embarcaram na onda do drug movie, mas nenhum chegou aos pés da criatividade de Mojica. Ritual dos Sádicos ganha cores nas viagens de LSD das quatro cobaias (entre elas o grande Ozualdo Candeias, em excelente atuação), que evocam em seus delírios o nefasto e polêmico personagem. Aula de metalinguagem, o filme experimenta como poucos de sua época. Não por acaso, estão no elenco Carlos Reichenbach, Jairo Ferreira, Maurice Capovilla e João Callegaro, além do já citado Candeias, todos cineastas ligados ao efervescente cinema marginal e suas experimentações sem limites. Logo após a exibição de O Ritual dos Sádicos, houve um bate papo bem humorado com Liz Vamp, a filha de Mojica (a programação do evento tentou a presença do próprio cineasta, mas foi impossibilitada por causa do início das filmagens de A Encarnação do Demônio), que revelou alguns segredos da época e outras curiosidades do grande mestre.
Além dos filmes da programação normal, o evento também apresentou uma mostra competitiva com vários curtas de todo o país e cursos sobre a história do cinema fantástico e roteiro. Se na primeira edição Cinema Fantástico o êxito já tinha sido enorme, na continuação, com mais público, mais salas e mais diversidade na programação, o sucesso acabou sendo maior. Que venha o terceiro em 2007! |
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