KEVIN AYERS
EXCÊNTRICO GENIAL

 



 

 

por Leonardo Bomfim

 

De todos os compositores excêntricos que assolaram a cena britânica, principalmente, na segunda metade da década de 60, um dos mais geniais (e pouco conhecido) era um cabeludo loiro chamado Kevin Ayers. Desde o início de sua carreira, em um primeiro momento investido nas loucuras esquizofrênicas do Soft Machine até sua sensacional fase solo no início dos 70´s, Ayers manteve a sonoridade impecável, ora como trovador irrequieto de poemas delirantes e autor sóbrio de singelas canções folk, ou como dândi de inevitáveis experiências elétricas, sempre entoadas com sua voz grave e classuda.

A carreira musical de Kevin Ayers começou pra valer em 1964 com a formação da banda The Wilde Flowers em Canterbury. Antes disso, ele só havia feito performances folk em bares pequenos de Herne Bay, sua cidade natal. O som inicial do Wilde Flowers – que em suas diversas formações revelou a gênese do que viria ser o “Canterbury Sound” (uma referência à cidade em que o grupo começou a atuar) – trazia muita influência do r´n´b, algo praticamente obrigatório para qualquer banda inglesa da época. O line-up que durou mais tempo foi Kevin Ayers (voz), Brian Hopper (sax e guitarra), Hugh Hopper (baixo), Richard Sinclair (guitarra) e Robert Wyatt (bateria). As toscas gravações demo lançadas na década de 90 em cd trazem a estréia de Ayers como compositor do rock empolgante “She´s Gone”.

 

 

Após dois anos de muitos shows e destaques na imprensa local, o Wilde Flowers encerrou as atividades. Ayers aproveitou a parada para se mandar pra Ibiza, local em que ele morou com a mãe quando criança. Em 1966, após as férias relax na paradisíaca ilha espanhola, ele voltou a se encontrar com o baterista Robert Wyatt, que o convidou para formar uma nova banda. Nascia aí o Soft Machine, que contava também com o guitarrista australiano (e amigo de Ayers) Daevid Allen e o organista Mike Ratelidge. Assumindo o contrabaixo e eventuais vocais, Ayers acabou virando ícone cool do underground londrino. As frenéticas apresentações do Soft Machine nos lendários clubs UFO e Middle Earth impressionavam tanto pela musicalidade, quanto pela extravagância de Ayers; uma andrógina figura loira que em seu maquiado rosto sob o lightshow de Mark Boyle, revelava um efeito espacialmente inusitado.

O amor faz a música soar doce
Faz você querer berrar tudo pra fora
O amor faz a música soar doce
Te deixa com vontade de correr, de berrar
Te deixa com vontade chorar, de correr... pra ela.

As primeiras gravações do Soft Machine traziam Kevin Ayers como compositor principal. “Love Makes Sweet Music/Feelin´ Reelin´ Squeelin´” – compacto lançado em janeiro de 67 – é diferente de tudo o que o Soft Machine faria depois. A primeira era um empolgante rockão com jeito de hino à costa oeste americana (depois foi regravada por Bon Scott!), e a segunda, com Ayers fazendo seus vocais graves sinistros, caminhava mais para a típica psicodelia inglesa. Esta face mais convencional do Soft Machine também pode ser conferida no cd “Jet Propelled Photographs”, repleto de demos gravadas nesse período. Ayers aparece em plena evolução autoral com excelente composições – a doidona Jet Propelled Photographs e os rocks I´d Rather Be With You e She´s Gone (esta retomada da época do Wilde Flowers).

 

 

Foi nesse momento que o guitarrista Daevid Allen teve problemas com seu visto e precisou sair da Inglaterra (pouco tempo depois ele fundaria na França o grupo Gong). O Soft Machine, então, virou um trio só com baixo, teclado e bateria; formação nada usual para a psicodelia da época. Os shows viraram pura catarse de improvisos jazzísticos e barulheiras infernais. O resultado final dessa nova sonoridade apareceu no ano seguinte com a estréia do Soft Machine em disco. O debut homônimo é caótico, experimental, cru, bizarro, psicodélico, entre outros adjetivos exagerados que apenas limitam a genialidade da obra. O lado A, cheio de trechos instrumentais absurdos – como “So Boot If It At All”, é assinado quase todo pelo grupo. Já o lado B, traz algumas composições primorosas de Kevin Ayers. “Lullabie Letter” é uma inusitada declaração de amor (“você é a cena mais estranha que já vi.../você é a coisa mais doce que já vi”), We Did It Again consiste na repetição contínua e debochada dos versos “eu fiz isso novamente”. No entanto, a poesia lisérgica e bem humorada de Ayers atingia seu melhor nível em “Why Are We Sleeping”, a única cantada por ele no disco.

Minha cabeça é um nigthclub, com copos e vinho
Os freqüentadores estão dançando ou apenas fazendo hora
Enquanto Daevid roga pragas, os freqüentadores gritam.
Agora todos estão desesperados, “caiam fora do meu sonho!”

Na época do lançamento, o grupo tinha dado um tempo para descansar das loucuras da cena londrina. Meses depois, Wyatt e Ratelidge procuraram Ayers para voltarem a ensaiar, mas o figuraça tinha se mandado novamente para Ibiza, depois de ter vendido o baixo para Mitch Mitchell. O Soft Machine seguiu em frente com Hugh Hopper assumindo o contrabaixo. Ainda em 1968, Kevin Ayers voltou a Londres, alugou um flat e nele montou um pequeno estúdio caseiro. Foi lá que ele gravou as demos de seu primeiro disco solo. Os empresários Peter Jenner e Andrew King ficaram impressionados com a qualidade do material e garantiram um contrato com a gravadora Harvest. De fato, o repertório era bem diferente do som radical do Soft Machine, com uma acentuada veia psicodélica e melancólica. Em 1969 saiu Joy of a Toy.

 

 

Hoje, a cidade parece uma tumba
Todos estão trancados em seus quartos
Fazendo amor, ou tomando amor
Quem se importa?

A abertura do disco traz a alegria forçada de “Joy of a Toy Continued”, que, com seus lalala´s embriagados, contrasta a tristeza sóbria da seqüência em “Town Feeling”. A relação das duas canções traz à tona um viés quase conceitual. A festa da primeira música pode ser interpretada como os excessos vazios da swingin´london; o próprio título indica “a alegria de brinquedos”; bonecos que fazem das festas de ilusão o escape ideal para os problemas reais. Repleta de versos fortes, “Town Feeling” é um balde de água fria na alegria da boca pra fora.

Agora você vem e me diz que está triste
Mas você nunca fala sobre isso quando está feliz


O disco segue com o divertido pop-psicodélico “The Clarietta Rag”, que narra a história de uma moça que durante o dia passeia em sua lambreta e nas noites se transforma em uma rosa. É puro Syd Barrett! As personagens femininas aparecem diversas vezes em “Joy of a Toy”, sempre agraciadas com uma poesia sutil e metafórica. “Girl On a Swing”, embalada por notas de piano e guitarras hipnóticas, traz o retrato de uma inocente menina brincando no balanço, já a belíssima “Eleanor´s Cake”, que apesar do subtítulo surreal indicando que o bolo teria devorado a moça, se apresenta como apenas uma canção de consolo. Os dedilhados do violão de Ayers casam perfeitamente com o criativo arranjo de David Bedford. Um clarinete ameaçador introduz “Lady Rachel”, de letra à la Donovan sobre os temores da senhorita em um castelo. O timbre grave de Ayers assusta: “... e uma voz que vem da água diz/ bem-vinda garota, nós estávamos esperando que você viesse”.

O lado experimental que reinava em sua banda antiga aparece em canções como “Stop This Train (Again Doing It)”, de rotação alterada, e a bizarra “Oleh Oleh Bandu Bandong”, com instrumentos típicos da Malásia (Ayers também morou lá durante a infância). Encerra o disco a folk (com gaita e tudo!) “All This Crazy Gift of Time”, em que Kevin Ayers dá adeus e diz que espera não ter deixado ninguém triste. O Soft Machine ajudou bastante nas sessões de gravação (Robert Wyatt tocou em todas as músicas) e participou totalmente da melhor canção do disco: É “Song For The Insane Times”, de levada jazzística (com alguma influência brasileira, principalmente no piano de David Bradford) e letra repleta de visões poéticas, surreais e pessimistas do final dos 60´s, citando John Lennon, Aldous Huxley, Walt Dysney entre outras passagens memoráveis sobre voyeurismo, tecnologia e viagens lisérgicas.

Pessoas dizem que querem ser livres
Elas olham para ele, olham para mim
Mas é apenas elas mesmas o que querem ver
E todo mundo sabe disso…

No geral, Joy of a Toy trazia ecos de grandes compositores britânicos como Donovan, Syd Barrett, John Lennon e ainda apontava para uma direção totalmente autoral. Foram poucos os caras que conseguiram um disco tão coeso (e ao mesmo tempo experimental) em suas estréias. O disco foi bem recebido pela crítica e como a Harverst era uma gravadora emergente, seria interessante apostar em nomes talentosos, mesmo que comercialmente não fossem tão lucrativos. Em 1970, Kevin Ayers resolveu cair na estrada e montou uma banda chamada The Whole World. Os integrantes eram Mick Fincher (bateria), Lol Coxhill (sax), o arranjador do primeiro disco David Bedford (teclados) e Mike Oldfield (baixo/guitarra). O baixista, que pouco tempo depois ficaria famoso como um dos maiores instrumentistas do rock progressivo, estreou para o grande público na tour com Ayers. Após uma temporada de shows, a banda entrou em estúdio para gravar o sucessor de Joy of a Toy.

 


Kevin Ayers tocando com o The Whole World

 

Com uma banda coesa, Kevin Ayers pôde pensar em um disco com trechos instrumentais mais trabalhados. Shooting At The Moon veio ao mundo em outubro de 1970, com apenas quatro faixas. Na verdade havia três suítes que englobavam várias canções em meio a loucuras experimentais e caóticas. A primeira suíte do lado A inicia com “May I?”, singela e belíssima canção. A letra, versando sobre um encontro com uma garota em um café, é agraciada pela interpretação apaixonada de Ayers; palavras simples como “smile” ganham proporções mágicas. Em seguida aparece a progressiva “Rheinhardt And Geraldine”, com grande destaque para a performance de Oldfield. Enquanto na balada “May I?” ele passeia livremente pelas escalas, na segunda canção, o baixo torna-se o elemento principal, distorcido e mixado em alto volume. Após um momento de colagem sonora pra lá de vanguardista, “Colores Para Dolores” surge como uma interpretação das cores.

Marrom é a cor da pele, que eu gostaria de ter
Pois não é legal, ser colorido tão branco
Azul é a cor do céu
E eu nem vou tentar, te explicar o como e o porquê
Eu apenas irei te mostrar o céu

A segunda suíte do disco traz apenas duas canções. “Lunatic Laments” é um rock pesado regado à voz distorcida que traz algum parentesco com “21st Century Schizoid Man” do King Crimson, muito por causa da temática da letra. Na canção de Ayers, guitarras estridentes e berros alucinados complementam a agonia de um cara que está enlouquecendo em sua cama. Os últimos suspiros do lunático dão lugar às experimentações de “Pisser Dans Un Violon”, com mais de sete minutos de improvisos instrumentais vanguardistas. O lado b dá as caras com a adorável folk “The Oyster & The Flying Fish”, cantado em um dueto com a cantora Bridget Saint John. A letra faz uma metáfora sobre o fato das pessoas nunca estarem contentes com o que têm. A ostra sonha em ser o peixe voador por causa da liberdade, ao mesmo tempo em que o peixe voador acredita que seria feliz se, assim como a ostra, tivesse um lugar fixo para morar. “Underwater” é mais um momento avant-garde de experiências sonoras, enquanto a curtíssima “Clarence In Wonderland”, composta em 1966 em Ibiza (e executada em alguns shows pelo Soft Machine), segue a temática costeira da suíte, dessa vez sob os efeitos de drogas alucinógenas. Fecha a primeira faixa do lado B a simpática balada comandada pelo violão “Red, Green and You Blue”. Destaque total para o sax de Lol Coxhill. Em um disco completamente radical como este, nada mais normal que surgir outra canção dos tempos do Soft Machine. A faixa-título que encerra a obra é uma regravação de “Jet Propelled Photograph” e traz instrumental tão doidão quando o da sua antiga banda.

As sessões de gravação de “Shooting At The Moon” ainda revelaram outras pérolas que (incrivelmente) não entraram no set final do disco. “Butterfly Dance”, que saiu apenas em compacto, tem uma intro melancólica bem no estilo Kevin Ayers e depois agita com o apoio de backing vocals femininos quase sobrenaturais. A linha de baixo de Oldfield também é algo de outro mundo.

Faça uma pergunta e eu te direi uma mentira
Faça outra e eu cuspirei em seus olhos

O hit psicodélico “Gemini Child”, uma das melhores do repertório de Ayers, não chegou nem a ser lançado na época. Um maravilhoso riff conduz a canção que lembra um pouco as coisas mais convencionais de Syd Barrett. O batera Mick Fincher arrebenta nas viradas certeiras. Outro hit gravado nesse período foi a beatlemaníaca “Star” (lançada em compacto em 71), que até parece ter sido feita por Paul McCartney.

Depois do lançamento de Shooting At The Moon, que assustou muita gente devido a seu experimentalismo, Kevin Ayers fez uma tour com o grupo Gong de seu antigo amigo australiano Daevid Allen. As Peel Sessions do Gong gravadas na época registram essa nova parceria da dupla. Para o disco seguinte, o compositor resolveu desmanchar o The Whole World, mantendo apenas David Bedford e Mile Oldfield como membros fixos. O clima nas gravações lembrou a época de Joy of a Toy, com participações de Robert Wyatt e Didier Maherbe, o responsável pelos sopros do Gong.

 

 

WhateverSheBringsWeSing saiu no comecinho de 1972 e traz um equilíbrio enorme em relação aos discos anteriores. Há canções memoráveis ao lado de momentos de doideira pura. Músicas como a simpática “Oh My” e a preguiçosa “Champagne Cowboy Blues” são peças simples e divertidas, assim como “Strange In a Blue Suede Shoes”, versando sobre um mendigo que entra no bar e é maltratado pelo dono. O estranho de “blue suede shoes” ganha a simpatia do cara depois que o presenteia com um “cigarro verde que o deixa com vontade de sair no sol, na chuva e sentir o vento batendo em sua pele novamente”. Uma ode à maconha de sonoridade muito parecida com “Sweet Jane” do Velvet Underground.

O link com o experimentalismo do disco anterior aparece em duas canções bem distintas. “There Is Loving/Among Us/There Is Lovin” é um rock sinfônico (lembra bastante o Pink Floyd de Atom Hear Mother), com baixo distorcido e citação ao single anterior “Butterfly Dance”. Já “Song From The Bottom of a Well” é uma das canções mais estranhas da carreira de Ayers. A sua voz barítona entoa versos pra lá de depressivos enquanto uma barulheira cria o caos ao fundo. Para contrastar com a negatividade da ´canção do fundo do poço´, há a lindíssima “Margaret”, com belo jogo de guitarras e piano, e a pequena maravilha instrumental “Lullaby”.

No entanto, o ápice do terceiro disco de Ayers é a faixa título, de perfeitos e longos oito minutos. É uma canção de celebração, com coro quase gospel e um solo de guitarra magistral de Mike Oldfield. A sensacional poesia (Ayers manda Bob Dylan e sua máxima de “Blowin´ in The Wind” para escanteio!) encaixa perfeitamente com a emocionada melodia.

Mas você não vai encontrar a resposta, até mesmo quando o vento soprar Porque a verdade, meu amigo Está bem na frente do seu nariz

A excepcional canção “WhateverSheBringsWeSing” pautaria os novos rumos musicais de Ayers naquele momento. Com muita influência de soul, blues e r´n´b, as tendências progressivas de discos anteriores passariam longe. Na época, o compositor estava vidrado no tipo de som que o Velvet Underground e os trabalhos solo de Lou Reed e Nico apresentavam, além de outros mártires de um rock mais cru como David Bowie e Bob Dylan. Para conseguir captar as novas influências, Ayers montou um power trio com Archie Leggett no baixo e Eddie Sparrow na bateria chamado The Archibalds. Com essa base ele gravou o quarto trabalho Bananamour.

 

 

O estilo mais simples das canções favoreceu as letras introspectivas de Ayers. Bananamour traz algumas de suas melhores (e mais tristes) poesias. A primeira canção já dá um susto; a balada soul-beatlemaníaca “Don´t Let It Get You Down” que encanta com um refrão cantado pelo trio de vozes feminino Liza Strike, Doris Troy e Barry St. John. As meninas são o charme do disco. O rhythm and blues “When Your Parents Go To Sleep” (com naipe de metais e tudo!) traz o baixista Archie no sensacional vocal principal. Quando a compôs, Ayers pensou imediatamente em uma voz à la Ray Charles, o que seria impossível no seu timbre grave. Sobrou para o baixista, que deu um show. Outra influência nítida em Bananamour é o folk-rock, principalmente na empolgante e bêbada (com um belo violão em primeiro plano) “Shouting In a Bucked Blues”, desfilando versos como “amores vêm, amores vão, mas amigos são difíceis de encontrar, e eu posso contar os meus em um único dedo”. As guitarras são cortesias do velho parceiro Mike Oldfield e de Andy Summers (futuro Police, que chegou a tocar em uma das primeiras formações do Soft Machine)

O blues surge na estranha “Interview”, de vocal no melhor estilo Bowie que interpreta uma hipotética e surreal entrevista de um artista com seu público. A produção da canção viajante ficou por contra do ´Soft Machine´ Mike Ratelidge. Robert Wyatt, sempre presente (neste mesmo ano o batera tinha pulado de um apartamento e perdido todo o movimento das pernas), fez a segunda voz de “Hymn”, uma singela balada dedicada a chanteuse Nico, uma das grandes musas de Kevin Ayers. A homenagem à Nico não parava por aí. “Decadence” é uma épica canção de clima velvetiano, com a poesia de Ayers, em seu melhor nível, pintando um retrato decadente da gélida femme fatale. Uma homenagem à la Kevin Ayers!

Outra dedicatória de Bananamour é ao freak Syd Barrett, em pleno surto esquizofrênico naquele momento. “Oh! Wot a Dream” é uma balada folk com toda a cara barrettista e direito a sons de patos no arranjo (referência ao final doido de “Bike” do clássico “The Piper At The Gates of Dawn”). A simples letra é sobre um sonho em que os dois compositores se encontram. Há boatos de que a dupla realmente se encontrou e gravou junto nas sessões de Joy of a Toy. As curtíssimas, porém grandiosas, “Beware The Dog” e “Internotional Anthem” completam o álbum.

Você é a pessoa mais extraordinária
Você escreve os tipos mais peculiares de canções
Eu te conheci flutuando, e eu, navegando.

 

 

Após a gravação de Bananamour, Ayers tirou um tempo de férias. Ele foi relaxar tomando vinho (o compositor era fanático por vinhos, várias canções citavam a bebida) em Rhone, na França. Nesse meio tempo, o contrato com a gravadora Harverst expirou. Kevin Ayers assinou com a Island e começou a ensaiar algumas novas canções com uma banda de pub rock chamada 747. A formação, no entanto, acabou após uma apresentação desastrosa em Edinbourgh na Escócia. Para as gravações de seu quinto registro solo, Ayers recorreu mais uma vez a diversos músicos, incluindo gente do Soft Machine, do Whole World e seu fiel escudeiro Mike Oldfield. Em março de 1974 apareceu nas lojas The Confessions Of The Dr. Dream.

O bom início da funkeada “Day By Day” (com os mesmos vocais femininos do disco anterior) é um alarme falso. O disco é tão eclético que deveria se chamar Confusions of The Dr. Dream. Há momentos guitarreiros – “Didn't Feel Lonely Till I Thought Of You” - , hard rock - “It Begins With A Blessing/ Once I Awakened/ But It Ends With A Curse” (nada mais que uma versão piorada para “Why Are We Sleeping” do primeiro disco do Soft Machine), blues acústico – “Ballbearing Blue” - , rock setentão cru – “See You Later” e balada de violão – “Two Goes Into Four”. O que salva é a suíte experimental que carrega o título do disco, trazendo uma participação de Nico, musa de outrora, nos vocais fantasmagóricos de “Irreversible Neural Damage”. Uma teia de vozes de trás pra frente, sons estranhos e outras colagens musicais que emendam com os solos de guitarra brilhantes de “Invitation”.

Ainda em 1974, Ayers organizou um show no Rainbow Theatre em Londres que reuniu alguns dos artistas mais excêntricos da época. Brian Eno, John Cale e, novamente, Nico juntaram-se ao compositor e sua banda para uma performance inusitada que rendeu o segundo lançamento de Ayers pela gravadora Island. O lado A do disco é reservado para o trio freak, com destaque para “Driving Me Backwards” de Eno, a versão de Cale para “Heartbreak Hotel” de Elvis Presley e a dissonante Nico com “The End”. No outro lado, Ayers aparece com canções de todas as suas fases. A bela “May I?” ganhou versos em francês e “Stranger In A Blue Suede Shoes” foi acompanhada pelas palmas empolgadas da platéia.

 

 

Nos dois anos seguintes, o compositor lançou uma dupla de discos, Sweet Deceiver e We Have No Mañanas, com sonoridade mais pop. Baladas, refrãos grudentos e solos de guitarra afiados recheiam ambos os trabalhos. A empolgante “Sweet Deceiver”, homônima ao disco, que apesar da cara de hit sugere em seus versos uma paranóia ligada a bad trip, e a balada poética “Star” (do Mañanas), merecem lugar em qualquer best of de Kevin Ayers. As outras canções ficaram um pouco abaixo da média.

Se você quer ser uma estrela
Uma estrela brilhante
Apenas brilhe

Entre o lançamento dos discos, foi para as lojas em fevereiro de 76 uma jóia chamada Odd Ditties, nada mais que uma coletânea de singles, lados b e outras canções que nunca haviam visto a cor do sol. O lado A é sensacional. Todas as canções seriam destaques entre as melhores dos primeiros discos. As já comentadas “Gemini Child”, “Stars” e “Buttefly Dance” dividem espaço com versões alternativas de “Singin A Song In The Morning” (cuja gravação, diz a lenda, contou com o violão de Syd Barrett), “Puis-Je” (“May I?” charmosíssima em francês) e “Stranger In a Blue Suede Shoes”. O lado b do disco apresenta a beleza francesa de “Jolie Madame”, uma versão superior de “Lady Rachel” e várias canções divertidas com temas praianos. “Fake Mexican Tourist Blues”, “Take Me To Tahiti” e “Caribbean Moon” nos levam a imaginar um jovem Kevin Ayers tocando violão nas areias de Ibiza.

A obra-prima do disco, no entanto, é “Soon, Soon, Soon”; hit ultra lisérgico gravado nas sessões de Joy of a Toy (se fosse lançada na época seria sucesso na certa) e guardado a sete chaves até 1976. Na verdade, a canção era frequentemente tocada nos shows do Soft Machine. Existe até um raríssimo registro de vídeo em que o grupo a apresenta com o título “We Know What You Mean”. A poderosa e doidona letra é encorajada por um duelo entre guitarra fuzz e delirantes cellos.

 

 

Seu último lançamento na década de 70 foi o irregular Rainbow Takeaway, que peca pela sonoridade demasiadamente pop dos dois discos anteriores, mas surpreende na bossa “Blamming It All On Love” e na folk surrealista “Hat Song”. Kevin Ayers seguiu pelas décadas de 80 e 90 lançando cada vez menos discos e fazendo shows cada vez mais esparsos. O que fica, no entanto, são as dezenas de canções memoráveis que ele escreveu ao longo de sua carreira, obras de um dos compositores mais criativos e inovadores da geração sixtie britânica. Kevin Ayers é excêntrico e doidão, mas, acima de tudo, genial!

Eu canto para todos aqueles que sentem que não há saída

 

 
     

 

 
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