ARQUITETURA FUZZ

 



 

por Juliana Barbi

jujubarbi@gmail.com

 

O que lhe vem à cabeça se eu lhe perguntar o que é Arquitetura Bossa-Nova? Aposto que, mesmo que não saiba coisa alguma sobre os períodos e estilos arquitetônicos, na sua mente surgirá a imagem de uma Copacabana de prédios luxuosos, calçadas desenhadas sugerindo a sinuosidade das ondas e do corpo das musas, além de cores suaves num clima de filminho Super-8. Adivinhei? Se ao menos cheguei perto, então fará sentido o que direi nos parágrafos seguintes, pois acho que nossa conexão semiótica está bem estabelecida. Em todos os casos, arquitetura bossa-nova é um dos ‘apelidos’ do estilo arquitetônico modernista do Rio de Janeiro nos anos 50, caracterizado pela obra de um velho conhecido nosso, Oscar Niemeyer. Oscarito tem declarações dignas de bossa-novistas malandrões como Vinicius de Moraes – ‘o que me atrai é a curva livre e sensual; a curva que encontro nas montanhas do meu país (...) e no corpo da mulher preferida’. Uh-lalá.

Mas nem toda arquitetura no Brasil é glamourosa como a de Niemeyer, assim como nem toda música brasileira é bossa-nova. A alguns quilômetros da voz ‘desafinada’ de João Gilberto, estava também o iê-iê-iê da turma da Matoso, a voz gritada de Gal, a psicodelia dos Mutantes e todo aquele tal de rock’n’roll. Como habitat de toda essa horda de jovens empunhando guitarras e desferindo berros ao microfone, só restava a garagem e os clubes – popularmente conhecidos como ‘inferninhos’ – onde podiam soltar o verbo à vontade sem serem repreendidos (a não ser pelos vizinhos!). O fato é que, ao contrário dos charmosos apartamentos onde o violão era rei, a arquitetura dos espaços onde imperava a guitarra não tinha nada de bossa, nem luxo, nem curva, nem nada. Muito pelo contrário...

 


Show no Underground Rock Bar

 

Liverpool, anos 60. Num ex-depósito de frutas e vegetais, 17 degraus abaixo do nível da rua, três salas com tetos abobadados e serragem no chão, umidade condensada chovia do teto enquanto pessoas dançavam ao som de mais uma apresentação dos... Beatles. Sim, esse era o Cavern Club, um clássico. Outros clubes como o The Flamingo e o Marquee Club ( berço dos Rolling Stones, The Who e outras milhares de bandas mods britânicas) não fugiam do padrão ‘precariedade’. E acredite, eram um su-ces-so.

No Brasil, especialmente no sul, alguns desses ‘inferninhos’ tornaram-se notáveis durante as décadas de 80 e 90. Em Porto Alegre, havia o Bar Ocidente, situado num edifício de 120 anos, cujas paredes e reboco eram de barro e dissolviam-se com a chuva. Tratava-se de um verdadeiro espaço lastimável, e que, no entanto, presenciou apresentações antológicas das bandas clássicas do rock gaúcho e do rock independente do Brasil inteiro. Ainda em PoA, existia (e ainda existe!) o Garagem Hermética, localizado na boêmia rua Barros Cassal. A reação das pessoas ao chegarem ao lugar era de ‘argh, que coisa horrorosa! Mas, epa, eu posso tocar nessa merda também!’, e assim se formava mais um auê rock’n’roll na cidade.

 


Júpiter Maçã no Ocidente (foto Rodrigo Borges)

 

Aqui em Florianópolis, a história dos inferninhos confunde-se com a figura de Frank Schnonemberger, proprietário de um dos primeiros (e mais curiosos) refúgios roqueiros da ilha – o Trópico’s. O lugar era um ‘barraco’ de madeira com cocos pendurados na entrada e umas cestas de frutas no balcão. De dia, casa de sucos, de noite, casa de álcool. O palco era num ‘puxadinho’, e foi lá mesmo que as bandas da cidade começaram a se reunir pra tocar. Depois o Frank mudou seu negócio pra Av. das Rendeiras, onde nasceu o Underground Rock Bar, o mais saudoso ambiente roqueiro do Desterro. O Underground também tinha estrutura de madeira, e parecia um barracão, mas ao menos tinha um logotipo mais coerente com o contexto (os cocos foram substituídos pelo símbolo do metrô de Londres). ‘Bons tempos, aqueles...’ é frase corrente entre quem costumava freqüentá-lo.

Pois bem, amigo. Depois desse discurso todo, a questão que fica é: como podem espaços tão horrorosos e mal resolvidos arquitetonicamente construírem tantas histórias e serem tão freqüentados, a despeito de todo o desconforto térmico, péssima acústica e estética precária? O Júpiter Maçã nem é arquiteto, mas sabe responder bem à questão – lugar legal ‘tem que ter um som legal, tem que ter gente legal e cerveja barata’, ponto. E digo mais – lugar legal tem que ter porta de banheiro riscada com recadinhos obscenos, paredes repletas de pôsteres de shows e muros pichados com nomes de bandas. Lugares legais têm que ser Mutantes. E ter muito fuzz¹ pra incomodar os ouvidos dos bossas que dizem o contrário.

 

¹Fuzz foi o típico pedal de guitarra usado por praticamente todas as bandas de garagem dos anos 60. Seu som distorcido e agressivo criou a sonoridade dos discos psicodélicos de Gal, Caetano, Gil e tantos outros durante aquela década.



 

 

 
     

 

 
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